(Santuários)

Fushimi Inari Taisha: a montanha de Inari em Quioto

Fushimi Inari, em Quioto, é o santuário-chefe de Inari desde 711. A montanha, os torii oferecidos, as raposas e o que a visita pede.

Nicholas Nishimura 10 min de leitura

Pintura em sumi-e do túnel de torii vermelhos de Fushimi Inari, subindo entre cedros na névoa.

Fushimi Inari Taisha fica em Fushimi, ao sul de Quioto, e o santuário se apresenta com uma frase simples: é o chefe, e os outros Inari do país se afiliam a ele. O apelido corrente é O-inari-san. O endereço que o lugar publica é 68 Fukakusa Yabunouchi-cho, Fushimi-ku, Quioto, 612-0882. A visita começa nessa frase de posse. A foto do túnel vermelho é um trecho do caminho, não o santuário.

伏見

Fushimi

O bairro ao sul de Quioto onde a montanha de Inari é o recinto, não o cenário.

O kami consagrado aqui é Inari. A raposa de pedra tem texto próprio na matéria da kitsune. O portão, como objeto, está em torii. Esta página fica com o lugar: quando foi consagrado, o que a montanha inclui, o que queimou, o que a fila de portões significa na voz do santuário e como atravessar sem tratar o morro como trilha de parque.

A data que o santuário conta

A página de história diz que Inari Ōkami foi consagrado no primeiro Dia do Cavalo do segundo mês de 711, no período Nara. Em 2011 o santuário celebrou os mil e trezentos anos dessa consagração. O Dia do Cavalo não cai na mesma data civil todo ano. Segue o calendário de nomes de dias. O santuário chama a visita desse dia de fuku-mairi e explica o nome pela crença de que a divindade a sudeste da capital antiga recompensava com grandes bênçãos. Há cerca de mil e trezentos anos, diz o FAQ, esse dia é simplesmente “o primeiro Dia do Cavalo”.

O posto na corte veio depois da consagração. Em 827, o imperador Junna teria concedido o grau jugoige, quinto inferior. O grau subiu ao longo dos anos até o Sho-ichii, o mais alto, em 942. O FAQ nota que outros kami do Japão também têm esse topo. A data de 711 e a de 942 não contam a mesma coisa. Uma é a consagração na montanha. A outra é o reconhecimento do cargo. As duas saem do santuário, não de um cálculo de fora.

A lenda anterior à burocracia está nos fragmentos do Yamashiro no kuni fudoki, como a Encyclopedia of Shinto os lê: Hata no Irogu atira num mochi, o mochi vira pássaro branco, voa ao pico de Mitsugamine e ali vira arroz. O clã Hata escreveu o nome 伊奈利. O clã Kada escreveu 稲荷. O santuário, no FAQ, liga o nome à frase “o arroz nasceu” e avisa que há outras explicações. Quem quiser uma origem única e limpa não vai encontrá-la no próprio lugar. Vai encontrar uma montanha em que mais de uma casa cultuou o kami do grão.

A montanha é o recinto

Inariyama tem 233 metros, diz o santuário, e é uma das mais ao sul das 36 montanhas de Higashiyama. O recinto principal cobre a montanha, e a área total, incluindo o lado oeste do pé, fica em torno de 870 mil metros quadrados. O lugar compara esse chão a cerca de 22 vezes o estádio Kōshien, que ele aponta como tendo cerca de 39.600 metros quadrados. A comparação é do santuário. Serve para dar escala, não para transformar a visita num número de passos.

O xintoísmo de Inari, na voz do lugar, começou como culto de montanha: Inariyama foi designada kamnabi, um ponto da natureza onde um kami é consagrado. Por isso o mapa não acaba no pátio de baixo. Pelo morro há hokora, santuários pequenos, shinseki, sítios de santuários que já não têm prédio e onde o kami permanece, otsuka, pedras com nomes de quem cultuou Inari sob outro título, e os torii. Tratar a subida como trilha de exercício e o alto como mirante corta o que o lugar diz que é.

No cume houve um santuário. O FAQ diz que ele queimou na Guerra de Ōnin, no século XV. Houve tentativas de reconstruir, e tufões destruíram os prédios novos. Ficou o shinseki. Depois da perda do cume, uma área de prece foi erguida para recolher doações da restauração. Chamou-se templo Aizenji e funcionou da era Genroku, no fim do século XVII, até o fim do período Edo, em meados do século XIX. No começo da era Meiji foi destruído. A pergunta “há um templo em Fushimi Inari?” tem resposta histórica, não resposta de placa atual. Hoje o visitante está num jinja.

O edifício principal é bem cultural importante, diz o santuário, e reúne cinco santuários: o de baixo, o do meio, o de cima, e os auxiliares Tanaka e Shino-Okami. São cinco assentos das virtudes de Inari Ōkami. A Kokugakuin nomeia, na leitura erudita, kami do grão, das águas e da terra entre os tronos antigos. Não é preciso decorar a lista para perceber que o honden não guarda uma estátua única com cara de raposa. Guarda um conjunto.

Os portões que alguém ofereceu

O túnel vermelho é oferta acumulada. O FAQ explica que, já no começo do período Edo, o torii tinha se espalhado como oferta, símbolo do desejo ou do reconhecimento de que a prece passou da pessoa ao kami. Hoje, diz o mesmo texto, há cerca de dez mil portões de todos os tamanhos nos caminhos da montanha. Empresas e famílias mandam gravar o nome. A montanha vira arquivo de pedidos. O número que circula em legenda de foto sem fonte é menos útil do que essa frase do santuário: a fila existe porque gente continua oferecendo, não porque um arquiteto desenhou um corredor.

A cor tem explicação local e explicação geral. Em Fushimi, o vermelhão expressa a colheita farta que Inari Ōkami dá. Também é descrito como amuleto contra forças maléficas, usado em palácios, santuários e templos antigos. O pigmento mistura mercúrio e terra vermelha e, desde tempos antigos, conserva a madeira. Outros jinja usam o mesmo vermelho. Em Fushimi ele se encontra com a densidade dos portões e com as raposas. Isolar a cor e chamar qualquer portão vermelho de “Inari” erra o lugar.

A shimenawa aparece onde o santuário marca limite dentro do limite. A corda não compete com o torii. Os dois dizem, em materiais diferentes, que um trecho do chão mudou de regime. Passar por baixo de um e por cima do outro sem olhar é tratar os dois como cenário.

A raposa no caminho, não no altar principal

O erro mais comum está fotografado: a pessoa que abraça a estátua. O FAQ separa as coisas. A raposa é mensageira de Inari Ōkami. Não é a raposa que se vê na montanha. Por isso o nome byakkosan, a branca, para uma mensageira que, como o kami, não se vê. A estátua aponta para essa mensageira. Não a substitui, e não substitui o kami. A matéria da kitsune guarda o conto, o fogo e as nove caudas. No morro de Fushimi, a estátua costuma ter uma cauda, uma chave, um feixe ou uma joia, e um babador que alguém amarrou porque pediu alguma coisa.

Procurar nove rabos aqui é procurar o desenho tardio no lugar da mensageira. Procurar “o deus raposa” é inverter a frase que o santuário publica. A reverência, quando a pessoa escolhe fazê-la, sobe até Inari. A pedra fica no caminho como sinal, não como colo.

O que a visita pede

A Jinja Honchō trata o recinto inteiro como sagrado, bosque e gramado inclusos. Muita gente inclina a cabeça no torii. O centro do caminho é muitas vezes deixado livre, por cortesia, porque esse eixo é pensado como passagem do kami. A associação diz que isso não é regra rígida: se for preciso cruzar o meio, um aceno breve basta. Na fonte, a concha lava uma mão, depois a outra, a boca sem encostar o metal, e a mão de novo. A água da boca volta à base, não à bacia. Diante do salão, duas reverências, duas palmas, uma reverência. A prece é baixa. Quem está rezando não é fundo de foto.

Não se entra em edifício sem convite, nem em área fechada por cerca ou corda. O omamori, se for recebido, não é suvenir. A associação o descreve como corpo do poder do kami. O ema, a tabuinha do pedido, quando o santuário a oferece, segue a lógica geral do voto: o desejo escrito fica com o lugar, não no bolso. O ofuda e o omamori têm prazos e prateleiras diferentes. Nenhum dos dois é o babador da raposa.

O cedro é a árvore da fé, diz o FAQ, mas não há um cedro obrigatório plantado em cada filial. Em Fushimi, o kami é pensado como residente nos cedros da montanha, e essas árvores são sagradas. Quebrar um galho para a foto não é um descuido pequeno. É tirar um pedaço do que o lugar chama de símbolo.

Visitantes de fora aumentaram, e o santuário registra isso sem transformar o morro num parque temático. O sacerdote-chefe, na saudação publicada, fala em proteger Inariyama e em passar a tradição de convivência entre kami, gente e natureza. A fila de quem sobe para a fotografia cabe nessa frase só até o ponto em que a fotografia não ocupa o salão de quem veio rezar. O túnel vermelho é generoso com a câmera. O honden não é.

O chefe, não o único

O FAQ responde a uma pergunta que a fama da montanha provoca: quais são os três maiores santuários de Inari do Japão? O lugar diz que não consegue eleger os outros dois, porque cada região descreve os seus de um jeito. Fushimi se apresenta como chefe e fala em cerca de trinta mil santuários afiliados. A Encyclopedia of Shinto separa três linhas que usam o mesmo nome: a de Fushimi e das emanações, a dos jinja sem esse vínculo, e a que cruza Inari com Dakiniten. Subir esta montanha é visitar o santuário que se diz cabeça da rede, não visitar “o único Inari verdadeiro”. Um altar de quintal em outra cidade pode ser filial, pode ser culto de casa, pode ser outra história. A placa é que diz. A foto do túnel não diz.

A ordem prática, no sopé, segue a de qualquer jinja e ganha corpo neste terreno porque o terreno é grande. Passa-se o portão com a cabeça inclinada. Na fonte, a concha fica na mão direita para lavar a esquerda, passa à esquerda para lavar a direita, volta à direita para deitar água na palma esquerda e enxaguar a boca sem o metal encostar nos lábios. Cospe-se na base. Lava-se de novo a mão que tocou a boca. A concha volta ao lugar. Diante do salão, a oferta se quiser, o sino se houver, duas reverências, duas palmas, a prece, uma reverência. Isso a Jinja Honchō publica para o jinja em geral. Em Fushimi, o mesmo gesto cabe no pátio de baixo e não precisa ser repetido em cada um dos dez mil portões. O que se repete na subida é o cuidado: não subir na estátua, não arrancar cedro, não fechar o caminho de quem veio no Dia do Cavalo quando a montanha está em festa.

O sacerdote-chefe escreve, na saudação do site, que a obrigação do lugar é proteger Inariyama e transmitir a convivência entre kami, gente e natureza. A fila de visitantes de fora, que o santuário registra como recente, cabe nessa frase enquanto a fila não ocupa o salão. O morro aguenta a caminhada. Não aguenta ser só cenário. Quem desce com o nome do kami, o século da consagração e a noção de que o portão foi oferta já viu Fushimi. Quem desce só com a foto do vermelho viu um corredor.

Fushimi Inari é, ao mesmo tempo, o chefe de um culto nacional e uma montanha específica de 233 metros ao sul de Quioto. As duas escalas cabem na mesma visita se a pessoa não reduzir o lugar ao trecho mais fotografado. O arroz, a raposa mensageira, o portão oferecido e o sítio queimado no século XV estão no mesmo chão. Nenhum deles é cenário dos outros.

Fontes

Perguntas frequentes

Fushimi Inari é um templo?

É um jinja, um santuário xintoísta. O próprio lugar se chama Fushimi Inari Taisha e se apresenta como santuário-chefe de Inari. Houve um templo budista no recinto, o Aizenji, entre o fim do século XVII e o fim do período Edo. Ele não existe mais.

Quantos torii há na montanha?

O FAQ do santuário fala em cerca de dez mil portões, de todos os tamanhos, nos caminhos da montanha. O número é o que o lugar publica, não uma contagem que se feche no dia da visita, porque portões continuam a ser oferecidos.

Dá para subir a montanha inteira?

O recinto cobre Inariyama, descrita pelo santuário como montanha sagrada de 233 metros, uma das mais ao sul das 36 de Higashiyama. O terreno, com a área a oeste do pé, é de cerca de 870 mil metros quadrados. A visita é um caminho, não um mirante único.

As raposas de pedra são o kami?

O santuário diz que não. São mensageiras, as byakkosan, distintas da raposa do mato. A reverência sobe até Inari Ōkami.