(Costumes)

Chá e matcha: o caminho da Urasenke e a tigela de Uji

O que a Urasenke chama de caminho do chá, as sete regras que a escola publica e o modo de bater matcha da prefeitura de Quioto, com gramas.

Nicholas Nishimura 10 min de leitura

Pintura em sumi-e de uma tigela de matcha e um chasen, com vapor sobre o chá.

Chadō, na página de introdução da Urasenke, é o caminho do chá. A escola também o chama de chanoyu e, em inglês, de cerimônia do chá japonesa. Define-o como disciplina espiritual e estética para o refinamento de si, um dō, um caminho. A mesma página diz que ele se ocupa de atividades da vida cotidiana que, para serem dominadas, pedem grande cultivo, e por isso se descreve bem como a arte de viver. Nutrido em solo japonês, representaria a quintessência da estética e da cultura japonesas. Gente de outros lugares, diz ainda o texto, descobriu que a vida fica embelezada por esse caminho, pelo espírito que o guia e pelos objetos que exprimem esse espírito. O grão-mestre que a introdução nomeia é Zabōsai Sen Sōshitsu XVI, décima sexta geração na linha que desce direto de Sen no Rikyū. A página data a sucessão em 22 de dezembro de 2002.

抹茶

matcha

O pó da tigela. A Urasenke descreve o caminho. A prefeitura de Quioto publica os gramas.

Há duas escalas nesta matéria, e elas não se fundem. A escola descreve um caminho. O instituto de chá de Uji, da prefeitura de Quioto, descreve como bater o pó em casa. Quioto, na página de turismo, já chama o chá de Uji de um dos mais antigos e estimados do país. Aqui o chá deixa de ser frase de cidade e vira gesto, com o dono de cada gesto.

Anfitrião, convidado e um tempo só

O caminho, diz a introdução, centra-se na atividade do anfitrião e do convidado que passam juntos um tempo de acolhimento mútuo em torno de uma tigela de matcha. O anfitrião busca servir uma tigela inesquecivelmente satisfatória. O convidado responde com gratidão. Os dois percebem que o tempo partilhado não pode repetir-se, que é uma ocasião de uma vez na vida.

A reunião completa tem nome: chaji. É ali, diz a página, que o caminho se desdobra como um momento singular, partilhado. Tudo o que entra nessa tigela, até a qualidade do ar e do espaço, torna-se parte do sabor. O chá perfeito teria de captar o sabor do momento: o espírito da estação, da ocasião, da hora e do lugar. A página não publica, nesse texto, a ordem de entrar na sala, o número de voltas da tigela nem o modo de beber. Quem procura um roteiro de corpo não o encontra aqui. Encontra o que a escola considera o núcleo: uma tigela, duas pessoas, um tempo que não volta.

Os princípios que a página põe debaixo dessa arte de viver são harmonia, respeito, pureza e tranquilidade. Ela os chama de universais e diz que podem orientar para uma paz genuína num mundo de inquietação. A frase é da escola. Os quatro nomes ficam em português como a página inglesa os dá. O texto lido não imprime, nesse parágrafo, as quatro palavras japonesas correspondentes. Não se acrescenta um quarteto que a seção não escreveu.

As sete regras, como a escola as conta

Sen no Rikyū, o mestre do século XVI que a Urasenke diz ter aperfeiçoado o caminho, teria sido certa vez convidado a explicar o que esse caminho implica. Respondeu que era uma questão de observar apenas sete regras. Fazer uma tigela de chá que satisfaça. Dispor o carvão de modo que a água ferva com eficiência. Proporcionar uma sensação de frescor no verão e de calor no inverno. Arranjar as flores como se estivessem no campo. Estar pronto com antecedência. Preparar-se para o caso de chover. Agir com a maior consideração para com os convidados.

A história que a página chama de bem conhecida continua. O interlocutor se irritou: seriam coisas simples, que qualquer um faria. Rikyū respondeu que se tornaria discípulo da pessoa capaz de cumpri-las sem falhar. A escola lê o episódio como prova de que o caminho trata da vida cotidiana e, ainda assim, pede grande cultivo. As sete regras também explicam, na frase dela, a criação do ambiente certo para o gozo de uma tigela perfeita. O arranjo das flores “como no campo” é regra de hospitalidade nessa lista. Não é o piquenique de hanami, que tem matéria e medida meteorológica próprias.

A biografia que a introdução desenvolve situa o homem. Rikyū, 1522–1591, nasceu em Sakai, filho mais velho de um mercador rico. Já era versado na arte do chá quando, aos dezenove, se tornou discípulo de Takeno Jōō. Estudou Zen. A página liga as inovações dele a essa experiência: a cabana e o caminho até ela para perceber a unidade com a natureza; uma entrada pela qual os convidados passavam rastejando, qualquer que fosse a patente; a beleza achada em utensílios comuns. Não era, diz o texto, um recluso. Esteve no centro político do período Azuchi-Momoyama, 1573–1614, associado a Oda Nobunaga e a Toyotomi Hideyoshi.

Depois da morte de Nobunaga, em 1582, Hideyoshi assumiu o poder e nomeou Rikyū seu mestre de chá. O grande castelo de Hideyoshi em Osaka continha, diz a página, não só a famosa sala dourada portátil, mas também uma cabana de dois tatames chamada Yamazato, “aldeia da montanha”. A sala dourada foi levada ao palácio imperial em Quioto em 1586, num chá em honra do imperador Ōgimachi, com utensílios de ouro, e Rikyū foi o principal auxiliar. A página discute o contraste entre o ouro e a palha como dois lados que o treinamento Zen de Rikyū saberia reconhecer, e avisa que não há registro do sentimento real dele sobre os dois estilos. O contraste fica como problema que a escola formula. Não vira citação de um diário que a página diz não existir.

Depois da morte de Rikyū, a propriedade em Quioto passou ao genro Shōan e, na aposentadoria deste, ao neto Sōtan. Sōtan, ao aposentar-se, dividiu o bem entre os filhos. A frente foi para Kōshin Sōsa. Os fundos, para Sensō Sōshitsu. Uma casa na rua Mushakōji, para Ichiō Sōshu. Desses três chás nasceram, respectivamente, as tradições Omotesenke, Urasenke e Mushakōjisenke. Outras linhas se ramificaram depois. A página ainda conta que, com o fim do sistema feudal na Restauração Meiji, em 1868, os sucessores hereditários perderam boa parte da renda. O décimo terceiro grão-mestre da Urasenke, Ennosai, 1872–1924, encontrou apoio num círculo de homens de negócios. Tantansai, 1893–1964, formou uma organização nacional e começou a apresentar a tradição no exterior. O herdeiro, Hōunsai, 1923–2025, pai do grão-mestre atual, empenhou-se em espalhar o caminho, e a página diz que por esse esforço a Urasenke se tornou a maior tradição de chadō no Japão e no mundo. “A maior” é o superlativo da escola. Fica com ela.

O que esta biografia não entrega é o roteiro da tigela na mão do leitor. Entrega o século, o nome, a sala de Osaka e a divisão em três casas. O pó, o grau e o mililitro estão noutra instituição.

A tigela que a prefeitura mede

O instituto de chá da prefeitura de Quioto, em Uji, publicou um modo de preparar matcha. A página marca atualização em 9 de junho de 2020. O contato que imprime é o próprio instituto, telefone 0774-22-5577. Os instrumentos: tigela de matcha, batedor de bambu, o chasen, e colher de bambu, o chashaku.

A água ferve e depois passa a outra tigela, para baixar a temperatura, antes de ser usada. O matcha é peneirado uma vez, para desfazer grumos. A tigela e o chasen se aquecem antes.

O primeiro passo põe o pó peneirado na tigela: duas colheres de chashaku, cerca de 2 gramas. O segundo prepara 70 mililitros de água resfriada a 70–80 graus, verte primeiro uma pequena quantidade na tigela e dissolve os grumos com o chasen. O terceiro verte o resto da água. O pulso vai e vem, primeiro em golpes curtos, depois alisando a superfície. Se surgir bolha grande, a ponta do chasen a desfaz, e a superfície alisada fica mais apresentável. O quarto passo é um critério, não um minuto: quanto mais fina a espuma, mais suave o gole. A página convida a saborear devagar, com um doce gostoso ao lado. Não nomeia o doce. Não dá caloria. Não dá minuto de infusão, porque o pó não é folha em infusão. É pó batido.

Três trocas já estão na página, para quem não tem o instrumento. Sem tigela de matcha, uma tigela de café com leite, ou qualquer tigela, serve. Sem chashaku, usa-se uma colher de chá: cheia de leve, são 2 gramas. A temperatura da água, no verão, um pouco mais baixa; no inverno, um pouco mais alta. A página não imprime o número desse “um pouco”. O intervalo que ela imprime continua sendo 70–80 graus. O “um pouco” não vira 65 nem 90.

Esse modo não é o chaji. Não há carvão, nem flor arranjada como no campo, nem entrada rastejando. Há pó, água numa faixa de temperatura, um batedor e uma quantidade. Quem chama os 2 gramas de “a cerimônia da Urasenke” está colando a ficha de Uji na escola que não publicou esses números.

No Brasil, com a ficha que tem grama

A cozinha daqui não está na página de Uji nem na da Urasenke. O que se transporta é o critério da ficha que se escolheu. Para bater o pó em casa, a ficha é a da prefeitura: 2 gramas, 70 mililitros, 70–80 graus, água que ferveu e esfriou, pó peneirado, espuma fina. A colher de chá levemente cheia já é a substituição que a página autoriza. A tigela de café com leite também. Uma terceira substituição, com outro pó e outra água, deixa de ser esta ficha.

Matcha, nessa página, é o pó que se peneira e se bate. Um chá verde em folha, uma infusão de saquinho ou um pó culinário cujo rótulo mande outra dose não herdam os 2 gramas. Se a lata imprimir 4 gramas em 200 mililitros, a lata é a ficha daquela lata. Somar o intervalo de 70–80 graus a uma receita de leite é inventar uma bebida que nem a escola nem o instituto descreveram. As duas páginas nem sequer falam de leite.

A água precisa ter fervido e depois esfriado. Água de torneira morna, ou de uma garrafa cujo grau ninguém mediu, não é o segundo passo. O verão “um pouco mais frio” não autoriza um número novo. Quem não tem termômetro não ganha um grau de memória. Ganha o intervalo que a página escreveu, ou ganha o silêncio.

O doce ao lado fica sem nome. A página não diz wagashi, nem açúcar, nem biscoito. Pôr um doce brasileiro não estraga a tigela se a pessoa souber que o doce não faz parte da medida. A medida é o pó e a água. O doce é o convite a ir devagar.

O onigiri e o misoshiru são a outra mesa: arroz na mão e sopa de pasta, com fichas que não pedem chasen. A chapa de okonomiyaki é outra ainda, farinha e repolho, e a história que o ministério conta dessa chapa passa por uma reunião de chá. Essa história fica na ficha da chapa. Não se bate matcha com a massa do okonomiyaki, e não se conta o caminho da Urasenke como se fosse o modo de 2 gramas.

O que as duas fontes desta matéria prometem é uma distinção. A escola promete um caminho, sete regras atribuídas a Rikyū, quatro princípios e uma linhagem que chega a 2002 no grão-mestre atual, com o pai datado até 2025 na própria página. A prefeitura promete uma tigela: 2 gramas, 70 mililitros, 70 a 80 graus, espuma fina, doce sem nome ao lado. Quem serve o chaji segue a escola, e esta página não lhe dá o roteiro dos gestos. Quem bate o pó em casa segue Uji, e não chama isso de transmissão de Rikyū só porque o pó é verde.

Fontes

Perguntas frequentes

O que a Urasenke chama de chadō?

Na página de introdução, chadō, também chanoyu e, em inglês, a cerimônia do chá japonesa, é uma disciplina espiritual e estética de refinamento de si, um caminho. O centro é o anfitrião e o convidado partilhando uma tigela de matcha, num tempo que não se repete.

Quais são as sete regras que a escola atribui a Rikyu?

Fazer uma tigela de chá que satisfaça; dispor o carvão para a água ferver com eficiência; dar frescor no verão e calor no inverno; arranjar as flores como se estivessem no campo; estar pronto antes da hora; preparar-se para a chuva; agir com a maior consideração pelos convidados.

Quantos gramas a prefeitura de Quioto usa?

Duas colheres de chashaku, cerca de 2 gramas, e 70 mililitros de água resfriada a 70–80 graus. Sem chashaku, uma colher de chá levemente cheia também é 2 gramas, diz a página. O pó se peneira antes. A água ferve e depois esfria noutra tigela.

Esse modo de bater é a cerimônia?

É o modo de casa que o instituto de chá de Uji publicou em 2020. A Urasenke descreve outra escala, o chaji, a reunião completa, em que o caminho se desdobra. Os 2 gramas e os 70 mililitros não estão na página da escola. Ficam na ficha da prefeitura.