(Kami)

Inari: o kami do arroz, da colheita e do comércio

Inari Ōkami é o kami do arroz e da fartura. A raposa é mensageira. O nome, Fushimi e o que o culto ainda pede.

Nicholas Nishimura 11 min de leitura

Pintura em sumi-e de uma kitsune branca sentada diante de um torii vermelho, com feixes de arroz e pinheiros.

Inari Ōkami é o kami que o Japão associa ao arroz, e o arroz, neste arquipélago, nunca foi só comida. Era colheita, imposto, ano bom, casa que atravessa o inverno. O culto cresceu para além da planta. O mesmo nome passou a cobrir o ofício, a loja, o barco de pesca e o pedido que uma família faz no fundo do terreno. Quem chega pelo desenho contemporâneo encontra primeiro a raposa. O santuário começa pelo outro lado.

稲荷

Inari

O nome que o santuário liga ao arroz nascido. A grafia e a história do clã mudam o kanji, não o lugar da montanha.

Esta matéria separa o kami da estátua, o santuário-chefe das filiais, e o pedido de colheita do pedido de caixa registradora. A raposa, com joia, chave e babador, está na matéria da kitsune. A montanha de Quioto, com endereço e caminho, está em Fushimi Inari Taisha. Aqui fica o culto: de onde o nome sai, o que as fontes contam da origem e o que uma visita ainda pede.

O arroz que o culto carrega

Fushimi Inari Taisha, em Quioto, apresenta-se como o santuário-chefe e data a consagração de Inari Ōkami no primeiro Dia do Cavalo do segundo mês de 711, no período Nara. Em 2011 o lugar marcou os mil e trezentos anos dessa data. O santuário descreve as preces antigas da corte: colheita de grãos, chuva que vem ou que para, paz no país. No período Heian, os pedidos passam a incluir um bom casamento. No século XVI, Toyotomi Hideyoshi rezou quando a mãe adoeceu, e o santuário registra a recuperação dela. Mais tarde entram a prosperidade do comércio e da indústria, a segurança da casa, a segurança no trânsito e a melhora nas artes de palco. A lista não é um cardápio moderno inventado para o turista. É o modo como o próprio jinja conta a ampliação do que cabe pedir.

O campo continua agrícola no centro. Sem o arroz, o resto perde o chão. A Encyclopedia of Shinto, no verbete de Nogami Takahiro sobre a fé Inari, trata o culto como ligado à comida e à lavoura, e ao mesmo tempo a outras formas, entre elas o kami de terreno, o yashikigami. A fé, escreve a enciclopédia, aparece em três linhas que convivem sob o mesmo nome. A primeira é a de Fushimi e dos santuários entendidos como emanação dele, os bunsha. A segunda reúne jinja de Inari espalhados pelo país sem esse vínculo. A terceira cruza Inari com Dakiniten, divindade budista. Quem visita um altar de quintal não precisa resolver essa teologia. Precisa saber que “Inari” na placa não garante a mesma casa-mãe, nem o mesmo século de história.

O número de santuários é falado, não contado numa ata única. O FAQ de Fushimi diz que se fala em cerca de trinta mil, e que Fushimi é o chefe. A Kokugakuin diz mais de trinta mil e acrescenta que os pequenos e particulares fariam a soma crescer ainda mais, a ponto de Inari parecer um dos cultos mais presentes no Japão. As duas frases cabem juntas. Nenhuma autoriza cravar um total fechado, e nenhuma precisa disso para explicar por que a raposa de pedra aparece no fundo de uma loja antiga.

O nome, o pássaro e a montanha

O santuário responde à pergunta do nome com um fragmento do Yamashiro no kuni fudoki, o relatório antigo de terras, geografia e tradição oral da província. Dali viria a frase “o arroz nasceu”, ine ga narimashita. O mesmo FAQ avisa que existem outras explicações. A Kokugakuin entra no detalhe dos clãs: o Hata teria escrito 伊奈利, e o Kada, 稲荷. Na montanha de Fushimi, o culto não teve uma grafia só. Teve casas que adoravam o mesmo kami com letras diferentes.

A lenda de fundação que a enciclopédia tira desses fragmentos é concreta. Hata no Irogu usava mochi, o arroz socado, como alvo de flecha. A flecha partiu, o mochi virou pássaro branco e voou até o pico de Mitsugamine. Ali pousou, virou pés de arroz e cresceu. Dessa cena o culto de Inari ficou colado ao grão. Depois veio o laço com o templo Tōji, o Kyōō Gokokuji. A imagem famosa é a de um kami Inari em forma de velho que carrega arroz e promete a Kūkai proteger o templo. A enciclopédia lê essa figura como expressão do culto do cereal. Não é uma cena do Kojiki. É tradição de santuário e de templo, posterior aos mitos do século VIII, e por isso não deve ser colada em Amaterasu como se fosse o mesmo livro. O que as duas histórias compartilham é o lugar do alimento sagrado: em Ise, o kami do grão do santuário externo foi comparado, na leitura da Kokugakuin, a Ukanomitama, um dos nomes que passam a ocupar os assentos de Inari.

O Engishiki, no século X, já registra o santuário de Inari com três tronos, sanza. A enciclopédia nota que a palavra aparece antes, em 857, na seção de postos de kami do Montoku jitsuroku. Um documento medieval, o Nijūni shaki, nomeia os três: uma kami das águas, Ukanomitama como kami do grão, e Sarutahiko como kami senhor da terra. Hoje, o verbete lista nos santuários de baixo, do meio e de cima Ukanomitama, Satahiko e Ōmiyanome, e ainda Tanaka e Shi. O santuário, na página em inglês, fala em cinco santuários reunidos no edifício principal: baixo, médio, alto, e os auxiliares Tanaka e Shino-Okami, cada um a encarnar uma virtude de Inari Ōkami. As listas não são uma ficha para decorar. Mostram que “Inari” é um nome de conjunto. O visitante que procura um único rosto vai sair com o rosto errado.

A festa do cavalo e o kami que desce

A festa mais viva, na leitura da Kokugakuin, é o Hatsuuma, no segundo mês. Durante muito tempo ela foi explicada como o aniversário da consagração. O verbete sugere outra camada, de crença popular espalhada pelo país: na primavera o kami da montanha desce e vira kami do arrozal, e no outono volta ao morro. O Hatsuuma de Fushimi teria crescido em cima dessa recepção da primavera. Em algumas regiões a festa de outono ainda se chama Hatsuuma. Onde o culto de Fushimi chegou com força, houve caso de a festa de outono mudar para a primavera. O calendário, aqui, não é detalhe folclórico. É o jeito como um santuário nacional se encaixa num gesto que a aldeia já fazia.

O santuário chama de fuku-mairi a visita à montanha nesse primeiro Dia do Cavalo de fevereiro. A explicação que ele dá ao nome é geográfica e antiga: a divindade consagrada a sudeste da capital antiga recompensaria as pessoas com grandes bênçãos, fuku. O Dia do Cavalo em si muda de data civil todo ano, porque segue o calendário tradicional de nomes de dias. Quem procura “o festival de Inari” num fim de semana fixo de fevereiro está procurando um calendário que o lugar não usa.

Há também o posto. O FAQ conta que Inari Ōkami recebeu de Junna, em 827, o grau jugoige, o quinto inferior, e que o grau foi subindo até o Sho-ichii, o mais alto, em 942. O santuário lembra que outros kami do país também ostentam esse topo. O posto da corte não transforma Inari num kami imperial exclusivo. Mostra que, já no século IX, o culto da montanha de arroz tinha entrado no registro do Estado.

A raposa entra pelo nome e pelo caminho

A raposa é o ponto em que o visitante mais erra, e o santuário é direto. As raposas são mensageiras, parentes rituais de Inari Ōkami. Não são as raposas do mato. Por isso se chamam byakkosan, as brancas, e, como o kami, não se deixam ver. A frase que fecha o verbete do FAQ merece ser copiada no tom, não no atalho: isso não quer dizer que Inari Ōkami seja uma raposa.

A Kokugakuin conta como a associação se armou. Nos lugares em que se recebia o kami da montanha, o morro da festa se chamava kitsunedsuka, morro da raposa, e esses morros existem pelo país. A crença dizia que, para o kami da montanha virar kami do arrozal, ele vinha a cavalo e uma raposa o guiava até a plantação. Os nomes Ukanomitama, Ukemochi e Miketsukami, todos cultuados em santuários de Inari, carregam o som de alimento: uka, uke, ke. Miketsukami, escrito como kami do alimento, soava igual a “três kami raposa”. O trocadilho, diz o verbete, trouxe a raposa para dentro da fé e, na prática, fez nascer kami-raposa. É uma explicação de erudito, assinada por Nogami, não um mito que o santuário peça ao visitante para repetir. Serve para entender por que a estátua está ali sem transformar a estátua no dono do lugar.

Em Fushimi há um santuário, Myōbusha ou Byakkosha, onde espíritos de raposa são cultuados. A enciclopédia registra miko ativas ali em feitiços de afeição e em preces de ascensão. Também registra fé de raposa entre ferreiros, e o caso, no texto Inari Kokkyōki e depois no nō Kokaji, do ferreiro Sanjō Munechika ajudado por uma raposa a forjar uma espada. São camadas medievais. Não são a legenda da estátua que a loja de suvenir vende. A kitsune de conto, a que muda de forma e acende fogo no bambuzal, mora ao lado dessa história e não dentro do honden.

O vermelho organiza a cena e também não é exclusivo. O santuário descreve o vermelhão como cor de colheita farta e como amuleto contra forças maléficas, usado em palácios, santuários e templos antigos. O pigmento, diz o FAQ, mistura mercúrio e terra vermelha e conserva a madeira. Outros jinja pintam do mesmo jeito. O que identifica Inari com mais firmeza é o conjunto: o nome na placa, as raposas de pedra, e muitas vezes uma fila de torii oferecidos. Em Fushimi, o FAQ fala em cerca de dez mil portões, de todos os tamanhos, nos caminhos da montanha. Cada portão, na leitura do santuário, simboliza o desejo ou o reconhecimento de que a prece “passou” da pessoa ao kami. O costume de oferecer torii já estava espalhado no começo do período Edo.

Onde o culto se senta

Inari viajou porque cabia em mais de um ofício. A enciclopédia descreve a difusão por agricultores e citadinos que “estabelecem” um santuário, por residências de daimyō abertas depois ao culto comum, e por especialistas de preces protetoras. Em regiões comerciais, Inari garante a prosperidade do negócio. Em vilas de pesca, é kami da pesca. No leste do Japão destaca-se o kami de terreno, o yashikigami, culto de casa mais do que de província inteira. Houve um dito do início de Edo, recolhido no verbete: na cidade, o que mais se vê são lojas de Ise, Inari e esterco de cachorro. A frase é grosseira de propósito. Mede popularidade pela rua, não pelo prestígio da corte.

Os nomes dos santuários locais acumulam prefixo de lugar, nome de pessoa ou função do kami. A multiplicidade, escreve Nogami, combina com a diversidade dos pedidos. Outro traço é o culto adotado por indivíduo e por casa, não só por uma região inteira. Por isso um Inari de quintal, duas raposas e uma casa em miniatura, merece o mesmo recuo de um santuário grande. Está em terreno de alguém. A shimenawa, quando fecha um trecho, avisa que aquele chão já não é corredor.

A árvore do culto, no FAQ de Fushimi, é o cedro. Não há, porém, um cedro ritual obrigatório plantado em todo santuário de Inari. A ideia é que o kami reside nos cedros que crescem na montanha de Inari, e que essas árvores são sagradas e simbólicas. Procurar “a árvore de Inari” num vaso de loja é procurar o símbolo fora do chão que o produz.

No alto da montanha de Fushimi houve um santuário. O FAQ diz que ele queimou na Guerra de Ōnin, no século XV. Houve tentativas de reconstrução, e tufões levaram os prédios novos. Ficou um shinseki, o sítio onde o santuário esteve e onde o kami, na linguagem do lugar, permanece. Pedras com nomes gravados, os otsuka, marcam gente que cultuou Inari sob outros títulos e deixou o nome na montanha. O recinto não é um pátio. O santuário trata Inariyama inteira como área sagrada, um kamnabi, lugar da natureza onde um kami é consagrado.

A visita, sem transformar o lugar em personagem

A Jinja Honchō descreve o jinja como espaço sagrado no recinto inteiro, não só no edifício. Passado o torii, o chão pede outro passo, inclusive no bosque e no gramado. A reverência se faz de fora. Entrar em salão, ou numa área fechada por cerca ou corda, pede convite. Ficar parado na frente de quem reza atrapalha a prece. O omamori recebido em troca de uma oferta não é lembrança: a associação dos santuários o trata como corpo do poder do kami, para guardar consigo ou dar a família e amigos.

Nada disso é regra exclusiva de Inari. É a etiqueta geral, e em Inari ela evita o erro específico da foto com a raposa no colo. O babador vermelho é oferta de quem pediu. A bandeira também. A chave, a joia ou o feixe de cereal na pata são atributos da fartura, não adereço de fantasia. Rezar “para a raposa” inverte a direção. A reverência sobe até Inari. A mensageira acompanha.

Quem desenha Inari hoje herda um arquivo largo: o grão, a montanha, o posto da corte, o templo budista, a loja, o barco, a casa particular e a raposa branca que não se vê. Guardar o arquivo não impede a ficção. O kami tem nome, data de consagração contada pelo santuário, e um campo de pedidos que o próprio lugar foi alargando. A raposa tem outro texto. Os dois se visitam no caminho de torii. Não ocupam o mesmo assento.

Fontes

Perguntas frequentes

Inari é a raposa?

Não no santuário. Fushimi Inari Taisha diz que a raposa é mensageira de Inari Ōkami, chamada byakkosan, e que o kami não é uma raposa. A estátua de pedra não recebe a reverência no lugar dele.

Quantos santuários de Inari existem?

O santuário de Fushimi fala em cerca de trinta mil, e se apresenta como o santuário-chefe. A Encyclopedia of Shinto, da Kokugakuin, fala em mais de trinta mil e lembra que os altares pequenos e particulares aumentariam ainda mais a conta.

O que se pede a Inari?

O próprio Fushimi Inari registra pedidos antigos por colheita, chuva na medida certa e paz no país. Com o tempo entraram casamento, a cura de um doente, a prosperidade do negócio, a casa, o trânsito e as artes.

De onde vem o nome Inari?

O santuário aponta um fragmento do Yamashiro no kuni fudoki e a frase “o arroz nasceu”. Também diz que há outras explicações. A Kokugakuin registra que o clã Hata escreveu 伊奈利 e o clã Kada, 稲荷.