(Kami)
Benten e Benzaiten: a deusa da água e a dos oito braços
Benten em três verbetes da Encyclopedia of Shinto: a Sarasvatī dos sete, a Uga Benten de oito braços e a cobra como shinshi.
Benzaiten, no verbete dos sete deuses da fortuna, foi originalmente a deusa indiana da água, Sarasvatī. Iwai Hiroshi escreve que no Japão ela é conhecida como padroeira da música e da eloquência, e põe sabedoria entre parênteses. A frase é curta. Cabe numa lista. O resto do verbete é a lista, não a biografia da deusa. Quem procura nela o braço, a cobra ou a ilha não encontra. Encontra o lugar que o nome ocupa entre sete.
弁財天
Benzaiten
Os sete, e o que a lista faz com o nome
Shichifukujin, escreve Iwai Hiroshi, são os sete deuses da boa fortuna, sete deuses com fama de trazer sorte. A lista mais comum inclui Ebisu, Daikoku, Bishamonten, Fukurokuju, Jurōjin, Benzaiten e Hōtei, o Pu-tai chinês. No período moderno inicial, Fukurokuju e Jurōjin foram com frequência identificados como o mesmo ser. O resultado, na mesma frase, é que a deusa Kichijōten ou as bestas míticas chamadas Shōjō entravam para fechar sete. A página não diz que as duas listas circularam no mesmo altar. Diz que, quando dois nomes se fundiam, outro nome ou outro ser completava a conta.
Sete, escreve o verbete, é um número sagrado, presente também em expressões como os sete corpos celestes, as sete joias e os sete sábios do bosque de bambu. O termo “sete boas fortunas” diz-se originar nas “sete tribulações e sete boas fortunas” mencionadas no sutra Niō gokoku hannya haramitsu-kyō. “Diz-se” é o verbo da origem do termo. O culto dos sete deuses da fortuna, na frase seguinte, acredita-se ter nascido no período Muromachi do Japão, por influência do tema iconográfico chinês dos Sete Sábios do Bosque de Bambu. “Acredita-se” é o verbo do culto. As duas cautelas ficam. Esta matéria não as troca por um ano de fundação.
Desde o período moderno inicial, os sete continuaram tema popular de pintura, escultura e performances folclóricas. Imagens dos sete deuses da fortuna montados no “barco do tesouro” tornaram-se assunto comum no período, e peregrinações em circuito a santuários e templos dedicados aos sete tornaram-se atividade popular. O verbete não imprime o mapa do circuito. Imprime o gênero, a imagem, e o gesto, o circuito.
Dos sete, o verbete ainda diz o ofício de cada um, em uma frase. Ebisu era padroeiro da pesca, do comércio e da agricultura, trazia bênçãos do lado distante do mar e foi identificado com Kotoshironushi. Daikokuten acredita-se originário do padroeiro indiano da cozinha Mahākala e, pela leitura homófona “dai-koku”, foi identificado com Ōkuninushi, como padroeiro da agricultura. Bishamonten era Vaiśravaṇa, chefe dos quatro reis deva. Fukurokuju e Jurōjin vêm do taoismo chinês, personificações da estrela do polo sul, com jurisdição, na astrologia chinesa, sobre a longevidade. Hōtei acredita-se vindo do sacerdote Chan, ou Zen, Qì-cí, Kaishi, da Liang Posterior, 907–923, e entrou na lista pelo porte rotundo e contente. Kichijōten, ou Kisshōten, Śrīmahādevī, foi Lakshmi, consorte de Bishamonten no budismo e padroeira da beleza, da fortuna e da riqueza. Shōjō, hoje nome de orangotangos, eram na China animais míticos ditos capazes de fala humana e conhecidos pelo gosto pela bebida.
Benzaiten, nessa página, é uma linha. A linha diz água, música e eloquência. Não diz oito braços. Oito braços são outro verbete, de outro autor, sobre outro nome.
Uga Benten, o kami que Itō Satoshi separa
Ugajin, no verbete de Itō Satoshi, tem outro nome: Uka no kami. É um kami obscuro, cultuado como deidade da fortuna desde o começo do período medieval. Fundido com a deidade budista Benzaiten, passou a ser conhecido como Uga Benten, e também pelos títulos Uga Shinnō, rei divino Uga, e Uga Shinshō, comandante divino Uga. O nome do kami foi conjecturado como vindo do sânscrito ugaya. A maioria das fontes, escreve Itō, sugere outra origem: o padroeiro dos alimentos Uka no mitama, tal como se encontra no Kojiki e no Nihongi, e que por isso teria sido cultuado de início como espírito do grão ou deidade da boa fortuna. “A maioria das fontes sugere” não apaga a conjectura sânscrita. Põe as duas na mesma frase e indica qual pesa mais, na leitura dele.
Os compilados do século VIII já têm leitura neste portal, a começar por Amaterasu. O par que abre essa narrativa está em Izanagi e Izanami. Itō Satoshi não os nomeia. Nomeia Uka no mitama dentro desses livros. O kami do grão, nessa frase, não é a deusa do sol e não é o par que forma a terra. É o nome que a maioria das fontes, segundo o verbete, põe atrás de Ugajin.
Os traços dessa deidade tomaram uma evolução própria ao se amalgamar com Benzaiten, como parte do desenvolvimento doutrinal da seita Tendai no Monte Hiei. Os volumes 36 e 37 do Keiran shūyōshū, que reúne lendas orais do Monte Hiei e foi compilado em 1317, incluem numerosas histórias sobre Uga Benten. No meio do período Kamakura, Kenchū, monge do grupo esotérico Tendai chamado Anōryū, compilou a coleção de práticas esotéricas chamada Saishō gogoku ugaya tontokunyoi hōjuō shūgi. Isso indica, escreve Itō, que as doutrinas da seita sobre Uga Benzaiten já tinham alcançado sistematização substancial nesse tempo. A data impressa da coletânea de lendas é 1317. A data de Kenchū é “meio do período Kamakura”. O verbete não cola as duas num mesmo dia.
Numerosos escritos budistas discutem Benzaiten. Entre eles, o Bussetsu saishō gokoku Uugaya tontoku nyōi hoju darani-kyō, o Bussetsu sokushin bontenfukutoku enman Ugajinshō Bosatsu hakujaku jigen mikka jōju-kyō e o Bussetsu Ugajin’ō fukutoku enman darani-kyō passaram a ser chamados os três sutras de Benzaiten. Com o acréscimo do Bussetsu Dai Uga Kudoku Benzaiten-kyō e do Dai-Benzaiten nyo darani-kyō, o grupo é às vezes chamado os cinco sutras de Benzaiten. Hoje, escreve Itō Satoshi, são todos considerados apócrifos. “Às vezes” é o verbo dos cinco. “Todos” é o verbo do juízo atual. A matéria não promove os cinco a cânone, nem os três.
Oito braços, quinze crianças, uma cobra na cabeça
O conteúdo desses textos, na mesma página, descreve a deidade como uma mulher celeste de oito braços, segurando uma lança, a roda-tesouro, um arco-tesouro, uma gema-tesouro, uma espada, uma clava, um cadeado e uma flecha. Uma cobra branca com o rosto de um humano idoso repousa sobre a cabeça dela, e ela conduz quinze deidades infantis como escolta. A devoção a Uga Benten diz-se recompensada pelo recebimento de bênçãos infinitas. “Diz-se” fica na recompensa. A lista de objetos fica como descrição do conteúdo dos textos.
Essas figurações, escreve Itō, diferem muito do retrato convencional de Benzaiten encontrado nos sutras Dainichikyō e Saishōō-kyō, e refletem um desenvolvimento próprio do culto de Benten no Japão. A frase é o corte do verbete. Há um retrato que ele chama de convencional, nesses dois sutras, e há outro, o dos oito braços, que ele atribui ao desenvolvimento japonês e aos textos que hoje considera apócrifos. Esta matéria não descreve o retrato convencional, porque a página não o descreve. Diz que é outro.
De Chikubushima, em Ōmi, perto do Monte Hiei, o culto de Uga Benzaiten espalhou-se pelo Japão, incluindo Itsukushima em Aki, Enoshima em Sagami e Tenkawa em Kii. Foi objeto popular de culto como deus da fortuna entre as pessoas do período Edo. Ugajin também foi adotado no Onmyōdō japonês e no Yoshida Shintō, o que levou à observação do festival chamado Ugajinsai. A página nomeia quatro lugares e um festival. Não imprime o mês do Ugajinsai, nem o rito, nem o que se oferece. Quem procurar calendário neste verbete não encontra. Encontra o mapa curto: uma ilha perto de Hiei, e três nomes de província.
A mesma página traz uma legenda de imagem. Uma cena dentro de uma caverna no Zeniarai-benzaiten Uga-fuku jinja, onde há uma fonte, zeniaraisui, da qual se diz que multiplica o dinheiro de quem o lava. A fotografia é de Ichida Masataka, 2006, na prefeitura de Kanagawa. “Da qual se diz” é o verbo da fonte. O ano é o da foto. A matéria não transforma a fonte numa regra de visita, nem publica horário de caverna que a legenda não tem.
O torii desses terrenos não está neste verbete. Itsukushima, Enoshima e Tenkawa aparecem como destinos do culto, não como fichas de entrada. Cada um, se tiver portão, publica o seu. Itō Satoshi publica a província.
A cobra como servo, noutro verbete
Shinshi, no verbete de Suzuki Kentarō, é o servo divino, em geral um animal identificado como servo ou familiar de um kami. Também se chama kami no tsukai ou tsukawashime. Contos de animais especiais que agem em nome de um kami, para transmitir a vontade divina ou para levar oráculos, veem-se já no Kojiki e no Nihongi. No segundo, uma cobra enorme é identificada como “serva do kami bravio” num episódio do grande rei Keikō. Um episódio do reinado do grande rei Kōgyoku registra que os gritos de macacos foram tomados como presságios de boa e má fortuna, porque eram tidos como “servos do grande kami de Ise”. Com o tempo, familiares animais ganharam identidades fixas na tradição dos santuários, como seres com relação especial aos objetos de culto, saijin, de cada casa, e tornou-se costume proteger e alimentar esses animais quando encontrados no recinto.
Em tais casos, escreve Suzuki, cada kami limitava-se em geral a um animal familiar, mas há casos de kami com vários familiares, em ocasiões excepcionais. Os exemplos que a página lista incluem cervos em Kasuga, Kashima e Itsukushima; macacos em Hiyoshi e Kasuga; corvos em Kumano, Sumiyoshi, Suwa, Haguro e Hiyoshi; pombas nos santuários de Hachiman; abelhas em Futarasan e Hiyoshi; e enguias em Mishima, em Izu. Familiares animais também são possuídos por alguns dos sete deuses da fortuna. O exemplo impresso é Daikokuten, o rato, e Benzaiten, a cobra.
A cobra de Suzuki Kentarō é o shinshi de Benzaiten entre os sete. A cobra de Itō Satoshi é branca, tem rosto de idoso e está sobre a cabeça da mulher de oito braços. As duas páginas não dizem que se trata do mesmo bicho na mesma imagem. Esta matéria também não cola as duas frases. Uma classifica um servo. A outra descreve um texto.
Em épocas posteriores, escreve Suzuki, o familiar animal de um kami podia ser cultuado popularmente como representação do próprio kami, como se vê no caso da raposa nos santuários de Inari. O fenômeno, pensa ele, provavelmente não nasceu só porque a raposa ou a cobra tinham uma relação particular com um kami específico, mas, mais amplamente, pela percepção de tais animais como seres espirituais incomuns. “Provavelmente” é o verbo dele. A raposa de Inari e a cobra de Benzaiten entram na mesma explicação. Não entram no mesmo santuário. A montanha de Inari em Quioto está em Fushimi Inari Taisha. Suzuki não descreve aquele recinto. Descreve o tipo de substituição: o animal passa a representar o kami.
Itsukushima aparece nos dois verbetes com funções diferentes. Em Itō, é um dos lugares para onde Uga Benten se espalhou. Em Suzuki, é um dos santuários cujo familiar é o cervo, ao lado de Kasuga e Kashima. O mesmo nome de ilha, duas relações. Uma é destino do culto de Uga Benten. A outra é exemplo de cervo como shinshi. A página de Suzuki não diz que o cervo de Itsukushima é a cobra de Benzaiten. A de Itō não diz que Itsukushima trocou a deusa pelo cervo.
O que estes três verbetes não fecham
O culto de Hachiman é outro caso em que um kami e um Buda ocupam o mesmo nome, e tem matéria própria. Itō Satoshi não o cita. Cita a fusão de Ugajin com Benzaiten no desenvolvimento Tendai do Monte Hiei, os títulos de rei e de comandante, e o Buda que, no retrato dos textos apócrifos, é uma mulher celeste. Iwai Hiroshi não cita Hiei. Cita a lista dos sete e a linha da água, da música e da eloquência. Suzuki Kentarō não cita os oito braços. Cita a cobra como servo, no mesmo fôlego em que cita o rato de Daikokuten e a pomba de Hachiman.
Três autores, três recortes. A deusa da água na lista dos sete não é, por essa lista, a mulher de oito braços. A mulher de oito braços não é, por esse verbete, o servo animal. O servo animal não devolve o leitor ao sutra das sete tribulações. Quem quiser uma só imagem para os três nomes — Benten, Benzaiten, Uga Benten — não a encontra nesta enciclopédia numa única frase. Encontra a frase de Iwai, a frase de Itō e a frase de Suzuki, e a obrigação de dizer qual delas está lendo.
O período Edo, em Itō, é a popularidade de Uga Benten como deus da fortuna. O período moderno inicial, em Iwai, é a pintura, a escultura, a performance, o barco do tesouro e o circuito. Os dois períodos não são o mesmo recorte, e as duas páginas não datam uma imagem de loja. Esta matéria também não. Não há, nestes verbetes, preço de estatueta, dia de feira nem regra de como dispor sete figuras numa prateleira. Há a lista, a fusão, os oito objetos, a cobra da cabeça, a cobra do servo, quatro lugares e um festival sem mês.
Fontes
- Shichifukujin, Iwai Hiroshi.
- Ugajin, Itō Satoshi.
- Shinshi, Suzuki Kentarō.
Perguntas frequentes
O que Iwai Hiroshi diz que Benzaiten foi?
Originalmente a deusa indiana da água, Sarasvatī. No Japão, o mesmo verbete a conhece como padroeira da música e da eloquência, que ele põe entre parênteses como sabedoria. Ela entra na lista mais comum dos sete deuses da fortuna.
Os cinco sutras de Benzaiten são canônicos?
Itō Satoshi escreve que os três sutras, e os cinco quando se somam mais dois títulos, são hoje todos tidos por apócrifos. O conteúdo que ele descreve é o da mulher celeste de oito braços, não o retrato convencional de Dainichikyō e Saishōō-kyō.
Para onde o culto de Uga Benten se espalhou?
Da ilha de Chikubushima, em Ōmi, perto do Monte Hiei, para Itsukushima em Aki, Enoshima em Sagami e Tenkawa em Kii. O verbete acrescenta que, no período Edo, era objeto popular de culto como deus da fortuna.
A cobra é a própria deusa?
São duas frases de dois verbetes. Itō Satoshi põe uma cobra branca, com rosto de idoso, sobre a cabeça da forma de oito braços. Suzuki Kentarō lista a cobra como shinshi, o servo animal, de Benzaiten, ao lado do rato de Daikokuten. Nenhum dos dois diz que a cobra substitui a deusa.