(Yokai)

Tengu: guardiões e orgulho das montanhas

Tengu são criaturas das montanhas do Japão. Corvo, nariz longo, leque, yamabushi e a lenda de Yoshitsune no monte Kurama.

Nicholas Nishimura Atualizado 7 min de leitura

O tengu mora onde a trilha sobe e a pessoa acha que já sabe o bastante. Nariz longo nas máscaras de festival, rosto vermelho, roupa de monge da montanha, leque de penas na mão: essa é a figura que o século recente fixou. Antes dela houve um bicho de bico, vindo de um nome chinês, que no Japão trocou de forma e de emprego. De presságio ruim a mestre de guerreiros, o tengu acumula funções sem pedir licença à enciclopédia.

天狗

tengu

Ser da montanha. O kanji, de origem chinesa, quer dizer cão celeste, mas a figura japonesa seguiu outro caminho.

Para situá-lo entre outros seres de fronteira, vale ler ao lado a kitsune, que circula entre santuário e conto, e o oni, que o calendário expulsa e às vezes contrata como guardião. O tengu fica com a altura: monte, cedro, orgulho.

De cão do céu a bico de corvo

O nome vem do chinês tiangou, o cão celeste, associado a cometas e a acontecimentos que a corte lia como aviso. No Japão a palavra pousou em outro corpo. Textos e imagens medievais descrevem o tengu com asas e bico de corvo, o karasu-tengu. Ele vive em bandos, ocupa árvores altas, imita sons de monge, atrapalha cerimônias, sequestra quem se aventura monte acima com mais vaidade do que preparo.

Essa fase corvo não desapareceu. Máscaras de bico continuam em festas e em alguns templos. O que aconteceu foi uma divisão de elenco. Ao lado do bando de bicos surgiu o daitengu, o grande tengu, de face humana vermelha e nariz que o teatro nō alongou até virar o traço que todo mundo desenha. O nariz não é um detalhe cômico gratuito. No corpo do ator, ele ocupa o espaço de quem se mete na frente. A moral cola no rosto.

Hanakata tengu, o tengu de nariz alto, e karasu-tengu, o de bico, podem aparecer juntos: o primeiro como chefe, o segundo como sequazes. É uma organização de conto e de gravura, não uma zoologia. Ainda assim, ajuda a olhar uma estampa. Se há bico, você está diante da linha mais antiga. Se há nariz e leque, está diante da linha que o palco consagrou.

Yamabushi, leque e montanha

O traje do daitengu copia o do yamabushi, o asceta do shugendō, prática que mistura montanha, esoterismo budista e elementos do xintoísmo. Gorro pequeno, pompons, vestes que permitem subir. O tengu vestido assim não é um yamabushi de verdade. É a imagem do poder da montanha usando a roupa de quem se dedica a ela.

O objeto que completa a mão é o hauchiwa, o leque de penas. Com ele, dizem os contos, o tengu levanta vento, encolhe ou estica o próprio nariz em algumas piadas de palco, e conduz ilusões. O leque é insígnia. Sem ele, a máscara ainda se reconhece. Com ele, a figura está armada.

羽団扇

hauchiwa

Leque de penas associado ao tengu, usado como insígnia e como instrumento de vento.

A montanha não é cenário. É o regime do tengu. Entrar nela sem guia, zombar de um asceta, caçar onde não se deve, aproximar-se de um templo no alto com a câmera no lugar do cumprimento: os contos antigos não conhecem a câmera, mas conhecem o gesto de quem trata o monte como quintal. A resposta do tengu é o extravio. A pessoa anda horas e volta ao mesmo cedro. Ouve sinos que não existem. Acha que chegou a um mosteiro e acorda no musgo.

Esse extravio tem nome de orgulho. Dizer que alguém “virou tengu” é dizer que a vaidade subiu ao nariz. A língua cotidiana conservou a lição mesmo entre quem nunca subiu Kurama.

Sōjōbō e o menino de Kurama

A história que as guias repetem une o tengu à guerra de Genpei. Minamoto no Yoshitsune, ainda Ushiwaka, teria sido treinado no monte Kurama, ao norte de Quioto, pelo rei dos tengu, Sōjōbō. As artes que o menino aprende explicam, na lenda, a genialidade militar do adulto, aquele que serviu a seu irmão Yoritomo e depois foi caçado por ele.

Kurama-dera, o templo da montanha, convive com essa narrativa. O visitante encontra tengu na loja, na escultura, na caminhada entre cedros. Não encontra um arquivo notarial do treinamento. A lenda faz o que lendas de herói fazem: dá um mestre não humano a um talento que a biografia comum não explica. Robin Hood tem o bosque. Yoshitsune tem o tengu.

Tomar a história como crônica do século XII é o erro. Tomá-la como nada, também. Ela mostra o momento em que o tengu deixa de ser só o perturbador de monges e passa a ser mestre. O mesmo nariz que humilha o arrogante escolhe um menino e lhe entrega uma técnica. A ambiguidade não se resolve. É o caráter do ser.

De estorvo a guardião

Templos budistas tiveram uma relação longa e tensa com os tengu. Textos medievais culpam bandos de tengu por incêndios, por quedas de vocação, por monges que se perdem no orgulho da própria santidade. O tengu, nessa chave, é o castigo de quem estudou para se exibir. Ao mesmo tempo, figuras de tengu passam a guardar portões, a proteger recintos, a receber culto local em certos montes. O que era praga vira sentinela.

Essa passagem não é um decreto com data. É uma tendência que se vê comparando séculos de imagem. O processo lembra o que acontece com outros seres perigosos: quando a comunidade não consegue expulsá-los da paisagem, ela lhes dá um posto. O oni também acaba entalhado na viga, assustando males piores. O tengu acaba no caminho do templo, assustando quem sobe sem medida.

Hoje, máscaras de tengu saem em procissões, viram escultura de onsen e enfeitam fachadas de restaurante de montanha. O nariz vende. A venda não apaga o posto antigo. Quem sobe Kurama ainda atravessa um bosque que a lenda ocupou antes do souvenir. O souvenir é o que se leva. O bosque continua sendo o argumento.

Orgulho, piada e respeito

Chamar alguém de tengu numa discussão é piada cortante. O nariz imaginário denuncia a pessoa que não ouve. Professores, mestres de arte e políticos estão entre os alvos clássicos, justamente porque o tengu original gostava de derrubar quem tinha título. A língua guardou o lado pedagógico.

O respeito fica para o lugar. Monte com templo não é trilha neutra só porque a máscara virou produto. O shugendō ainda tem praticantes. Os yamabushi ainda sobem, em grupos que não estão posando. Cruzar com um asceta no caminho pede o mesmo recuo que se dá a qualquer rito: não bloquear, não transformar a pessoa em conteúdo, não rir do traje que o tengu apenas imita.

Quem pratica artes marciais e ouve a história de Yoshitsune pode usá-la como mito de fundação de um estilo, e muitos textos de dōjō fazem isso. É mito. A técnica que se aprende na sala vem do professor da sala, não de Sōjōbō. A lenda empresta grandeza. Não substitui o treino. O próprio conto diz isso pelo avesso: até o menino genial teve de subir o monte todo dia.

Como não achatar a figura

Um guia rápido demais diria: tengu, goblin japonês de nariz grande. A palavra goblin importa um recorte europeu e devolve um brinquedo. O tengu não é um duende de jardim. É um modo de a montanha responder ao orgulho, um papel de teatro, um mestre lendário, um bico de corvo e um leque. Qualquer frase que escolha só um desses itens mente por omissão curta.

Na hora de desenhar, a escolha pode ser consciente. Nariz e leque citam o nō e o festival. Bico cita a fase corvo. Os dois juntos citam a hierarquia da gravura. Nenhum deles precisa de nove poderes inventados para um jogo, embora jogos existam e tenham as suas regras. O que o leitor de folclore pede é só que a regra do jogo não seja apresentada como etnografia.

Nomes, lugares e fontes

O kanji 天狗 documenta a viagem da palavra desde o cão celeste chinês até o ser japonês. A distinção entre karasu-tengu e daitengu está nas gravuras e nos estudos de yokai do período Edo em diante. Kurama-dera, ao norte de Quioto, é o lugar onde a lenda de Sōjōbō e Yoshitsune se visita a pé. A expressão cotidiana que compara o vaidoso ao tengu continua compreensível sem nota de rodapé.

O nariz é longo para ser visto de longe. A lição também. Quem sobe achando que a montanha cabe no bolso encontra, no mínimo, a mesma árvore duas vezes. Na conta antiga, isso já era o tengu passando.

Perguntas frequentes

O que é um tengu?

É um ser das montanhas japonesas, associado a orgulho, artes marciais e aos praticantes de shugendō. A imagem antiga tem bico de corvo. A imagem mais conhecida hoje tem rosto vermelho, nariz comprido e roupa de yamabushi.

Tengu é demônio ou protetor?

Os dois papéis existem, em épocas diferentes e às vezes na mesma época. Houve tengu que rapta e humilha. Houve tengu guardião de templo e mestre de esgrima. A palavra não escolhe um só lado.

Quem é o tengu de Kurama?

Sōjōbō é o nome do tengu-rei do monte Kurama, em Quioto, a quem a lenda atribui o ensino de táticas ao jovem Minamoto no Yoshitsune. É a história mais citada, não um registro administrativo.

O que significa chamar alguém de tengu?

É chamar a pessoa de arrogante. A expressão vem da ideia de que o tengu se perde pelo orgulho. Dizer que o nariz cresce, nesse contexto, não é elogio.