(Kami)

Izanagi e Izanami: o par que forma a terra

Izanagi e Izanami no Kojiki e no Nihon Shoki: as ilhas, a morte no parto do fogo, Yomi e os dois modos de nascerem os três filhos.

Nicholas Nishimura 11 min de leitura

Pintura em sumi-e de duas figuras numa ponte entre nuvens, com uma lança que agita o mar.

Izanagi e Izanami são o casal com que os compilados do século VIII passam da lista de nomes para a cena. A Encyclopedia of Shinto, no verbete de Kadoya Atsushi, os apresenta como os dois kami principalmente responsáveis pela formação do mundo, segundo o Kojiki e o Nihongi. A matéria de Amaterasu começa quando a filha já existe. A de Susanoo começa no desterro. Esta fica no par: o que cada livro faz nascer, o que a morte interrompe e o ponto em que as duas obras deixam de contar a mesma história.

伊邪那岐・伊邪那美

Izanagi · Izanami

O casal da sétima geração. O nome, na enciclopédia, costuma ser lido como convite, com sufixo masculino e feminino.

O glossário curto da mesma universidade cabe numa página. Os verbetes longos não cabem. Quem lê só o curto sai com um casal e três filhos. Quem lê o longo sai com duas máquinas de narrar.

O nome e a geração que age

Várias teorias explicam o nome, diz Kadoya. A leitura que ele registra como a usual toma iza por “convidar”, o verbo izanau. Os sufixos ki, ou gi, e mi valem masculino e feminino. O par, nessa leitura, já traz o casamento divino no próprio nome. O verbete de Izanami, assinado também por Yumiyama Tatsuya, repete o acordo: a maioria das interpretações lê iza como convite e mi como feminino. O que muda é o peso. Ela carrega a conotação forte de mãe da terra, porque dela e com ela nascem os kami da terra e do que a terra contém. Ele, em contraste com essa mãe, é pensado com traços de pai celeste. “É pensado” fica na frase. A enciclopédia não promove o apelido a dogma.

Os dois formam a sétima geração da era dos kami, o kamiyo. São os primeiros a quem os textos dão atos concretos. Antes deles, a lista existe. Com eles, há ponte, lança, ilha, parto e fuga. O glossário básico os chama de o primeiro casal casado dessa era. Diz que geraram as regiões terrestres, o Ōyashimaguni, montanhas, rios, mares, plantas, animais e homens, e se tornaram os deuses da terra e de tudo o que há nela. É um retrato de abertura. Os verbetes longos desmontam o retrato em episódios, e os episódios não concordam entre si em todos os pontos.

Essa discordância é o método da corte ao pôr o mito por escrito, não um erro de cópia que esta matéria deva corrigir. O Kojiki e o Nihon Shoki estão lado a lado na enciclopédia. Ficam lado a lado aqui.

A ponte, a lança e as ilhas

O mito, no verbete de Izanagi, começa com os dois de pé na ponte flutuante do céu. Usam uma lança para agitar o mar abaixo. A salmoura que escorre da ponta da lança coalha e forma a ilha de Onogoro. A enciclopédia não nomeia a lança. Não descreve quem falou primeiro. O que está no verbete é a ponte, o gesto de agitar e a ilha que a gota faz.

Descem a Onogoro. Criam Awaji e as outras ilhas do que a página chama de país das oito grandes ilhas. Por fim dão à luz vários outros kami. O verbete do kamiumi, de Kobori Keiko, retoma o momento seguinte com outra fórmula: terminada a criação das terras e das ilhas, a começar pelo Grande País das Mil Ilhas, o Ōyashima, o casal dá à luz os kami. Kamiumi é esse nascimento. As duas fórmulas nomeiam o conjunto das ilhas com ênfases diferentes. Uma fala em oito grandes ilhas. A outra, em miríade. Esta matéria não as funde num único mapa.

A ordem do Kojiki, ainda em Kobori, começa por Ōkotooshinoo, lido como sinal da enorme importância da tarefa. Seguem kami de rocha e solo, quatro nomes sobre os quais a página diz haver várias teorias, o kami do mar Ōwatatsumi, e o par dos portos e das embocaduras. Esse par, “regendo respectivamente os rios e os mares”, gera outros. O casal segue com o vento, as árvores, as montanhas e os campos. Mais nomes nascem das montanhas e das planícies, já não diretamente do casal. Voltam então ao casal o barco, a kami da comida Ōgetsuhime e o kami do fogo.

A genealogia que o Kojiki mostra, resumida pela mesma página, sai nesta ordem de domínios: mar, portos, vento, árvores, montanhas, planícies, barcos, comida e, por último, o fogo. O verbete de Izanami lista a mesma escada com os nomes próprios, até o fogo Hi no Kagutsuchi, também chamado Hinoyagihayao e Hinokakabiko. A lista longa prova que o compilado não tinha pressa. O ponto que as duas páginas pedem que se guarde é a ordem, e o fogo no fim.

O texto principal do Nihongi, diz Kobori, conta menos nomes e outro desfecho. Depois dos kami do mar, do rio, da montanha e da árvore, e então do kami das planícies, o casal dá à luz o kami do sol, o da lua, a criança-sanguessuga e Susanoo. Não há kami do fogo nesse trecho. Uma passagem alternativa diz que, depois do vento, do mar, das montanhas, dos portos, das árvores e da terra, tendo produzido tudo no mundo, eles por fim dão à luz o kami do fogo. A criança-sanguessuga aparece na frase do texto principal. A enciclopédia não conta a história dela. O nome fica onde a frase o pôs.

Kobori nota que essa progressão parece indicar influência da teoria chinesa das cinco fases, o wuxing, sobre o nascimento dos kami no Kojiki e no Nihongi. Em seguida avisa que não há acordo nesse ponto. A influência possível não vira fato desta matéria. O que as versões compartilham, diz ela, é o desenvolvimento dramático: na maior parte, é o kami do fogo quem nasce por último. Isso sugeriria, na leitura dela, a grande transformação da vida humana trazida pela introdução do fogo. A sugestão fica com a página.

O fogo, a doença e o que o corpo ainda gera

O verbete de Izanami é direto sobre o preço. Ao dar à luz o deus do fogo, ela queima os genitais, adoece e morre depois de passar os deuses do metal, da terra, da água e da madeira. É a primeira kami para quem os textos descrevem ritos fúnebres. O enterro, diz a página, teria sido no monte Hiba, na fronteira de Izumo e Hōki, segundo o Kojiki, ou em Kumano, numa escrita alternativa citada no Nihongi. “Teria sido” e a alternativa impedem um túmulo único.

O kamiumi detalha o que a doença ainda produz. Doente, deitada, ela gera a partir do que o corpo expele. Do vômito, Kanayamahiko e Kanayamahime. Das fezes, Haniyasubiko e Haniyasuhime. Da urina, Mitsuha no me e Wakumusuhi. Kobori liga todos eles ao fogo: metalurgia e cerâmica, prevenção do fogo, e comida. O verbete de Izanami nomeia os mesmos kami e diz que, depois deles, ela morre. O corpo que formou ilhas termina formando o metal, a argila e a água no próprio fim. A enciclopédia não adoça a cena. Esta matéria também não.

Há, antes do fogo, uma fila que o verbete de Izanami percorre e que o do kamiumi organiza por domínio. Mar, estreitos, vento, árvores, montanhas, campos, barco, comida. Guardar cada nome próprio seria copiar a genealogia. Guardar a ordem basta para ver o que o fogo interrompe: a produção do mundo habitável para no elemento que queima quem o pare.

Yomi, o olhar e a conta dos vivos

Izanagi segue a esposa morta até Yomi, a terra dos mortos, para trazê-la de volta. Quebra um tabu, kinki: a proibição de olhar para ela. O verbete de Izanami diz que ele se choca com o aspecto em putrefação da esposa e foge. Profere palavras de divórcio. Ela, traída e com raiva, ameaça matar mil pessoas por dia. Ele responde que fará nascer mil e quinhentas. A página diz que a história simbolizaria a origem da vida e da morte humanas. O condicional é da enciclopédia. O número também. Mil contra mil e quinhentos não é uma estatística demográfica. É a frase que o compilado põe na boca dos dois.

Como resultado, o Kojiki passa a chamá-la grande kami de Yomi, Yomotsu ōkami, e grande kami que persegue na estrada, Chishiki ōkami. O mesmo Kojiki, diz o verbete, a retrata sem relação com o nascimento dos três filhos nobres, Amaterasu, Tsukuyomi e Susanoo, e portanto sem relação com os kami ancestrais da família imperial. Essa frase importa. No Kojiki, a mãe da terra não é a mãe da linhagem que a corte vai contar a partir do sol. O parto do fogo a tira dessa cadeia.

O verbete de Izanagi confirma o desenho. No texto principal do Nihongi, os três filhos nobres são produzidos na hora da criação das ilhas e dos outros kami. O Kojiki e uma escrita alternativa citada no Nihongi dizem que os três foram produzidos de outro modo. Nesses dois registros, Izanami morre do parto do fogo, Izanagi a segue até Yomi, desobedece ao tabu de não olhar, foge da poluição da morte e realiza a lustração, o misogi, de que nascem os três. A matéria da filha, neste portal, comprime a purificação num rio. Estes verbetes não nomeiam o curso de água. O glossário curto diz que ele foi ao mar. O ato tem nome, misogi. O lugar da água muda conforme a página. Não se escolhe um rio para fechar a cena.

O glossário básico ainda acrescenta um cargo: tendo tocado a poluição e temendo o infortúnio, ele se purifica, e por isso é tido como fundador da prática do harae. Os verbetes longos não usam essa palavra de fundação. Usam misogi para o banho de que saem os três. Fundador do harae é frase do resumo. Fica no resumo.

A mesma página curta diz que os três kami mais importantes nascidos de Izanagi e de Izanami são Amaterasu Ōmikami, Susanoo no mikoto e Tsukiyomi no mikoto. A frase junta o casal como pais dos três. O verbete longo de Izanami diz o contrário para o Kojiki: ela fica de fora desse nascimento. As duas frases são da mesma universidade. O curto comprime o casal. O longo preserva a cisão do Kojiki. Quem ensina uma só versão está escolhendo um livro e calando o outro. A irmã e o irmão, nas matérias deste portal, já nascem dentro dessa cisão. Aqui a cisão é o assunto.

A corda da caverna, a shimenawa, pertence à história da filha, quando ela sai da escuridão e o mundo não pode fechá-la de novo. Não está na ponte flutuante nem em Yomi. O par prepara o mundo em que essa corda vai fazer sentido. Não carrega a corda.

Onde cada livro o deixa morrer

Izanagi também morre, e os livros não combinam o lugar. O Kojiki, diz Kadoya, registra que ele “se ocultou”, isto é, morreu, em Taga, na província de Ōmi. O Nihongi diz que morreu na província de Awaji ou em Hi no Wakamiya. Três topônimos, duas obras. Nenhum dos verbetes descreve um santuário em funcionamento, um horário ou um rito de visita. Taga, aqui, é o lugar da morte no Kojiki. Não é um roteiro.

Quem hoje lava as mãos num jinja está no vocabulário do misogi, não numa encenação do casal. A matéria do Meiji Jingū publica o gesto do lugar: água nas mãos, boca, mãos de novo, e a reverência diante do salão. Isso não repete Yomi. Repete a ideia de que o corpo se apronta antes de chegar perto do kami. O torii que se atravessa nessa visita é portão de santuário. Os compilados do par não o desenham na ponte do céu.

O que estes quatro verbetes entregam, somados, é um casal com nome de convite, uma ilha feita de salmoura, uma escada de kami que na maior parte das versões termina no fogo, uma morte com funeral, um olhar proibido, uma ameaça de mil mortos por dia contra mil e quinhentos nascimentos, e dois modos de produzir o sol, a lua e o irmão impetuoso. O glossário curto ainda oferece o título de fundador do harae e junta Izanami aos três filhos. O longo, no Kojiki, a retira dessa paternidade e a deixa como grande kami de Yomi.

A leitura que fecha o par numa “criação do Japão” sem livro está usando o glossário e jogando fora a tabela. A leitura que só conta a descida a Yomi está usando o Kojiki e a escrita alternativa, e calando o texto principal do Nihongi, em que os três já nasceram antes dessa descida. As duas cabem porque a enciclopédia as publicou juntas. O santuário, depois, lava as mãos sem precisar escolher qual livro estava certo.

Fontes

Perguntas frequentes

Quem são Izanagi e Izanami?

Na Encyclopedia of Shinto, são o casal da sétima geração da era dos kami, o primeiro a quem os compilados dão atos concretos. Juntos formam ilhas e outros kami. O verbete de Izanagi é de Kadoya Atsushi. O de Izanami, de Kadoya e Yumiyama Tatsuya.

Como nascem Amaterasu, Tsukuyomi e Susanoo?

O texto principal do Nihon Shoki os produz na mesma leva da criação. O Kojiki e uma escrita alternativa citada no Nihon Shoki contam outro caminho: Izanami morre ao dar à luz o kami do fogo, Izanagi desce a Yomi, quebra a proibição de olhar e, ao se purificar, gera os três.

Onde Izanami é sepultada, segundo os compilados?

O verbete diz que ela é a primeira kami com ritos fúnebres descritos. O Kojiki põe o enterro no monte Hiba, na fronteira de Izumo e Hōki. Uma escrita alternativa citada no Nihon Shoki diz Kumano. As duas localizações ficam com as duas páginas.

O glossário curto conta a mesma cena?

Não com o mesmo recorte. O verbete básico diz que os três kami importantes nascem de Izanagi e de Izanami, e trata Izanagi como fundador do harae. Os verbetes longos separam o texto principal do Nihon Shoki da conta do Kojiki. O resumo comprime. O longo deixa as duas versões lado a lado.