(Kami)

Susanoo: o irmão que o céu expulsou duas vezes

Susanoo no Kojiki e no Nihon Shoki: o desterro, a serpente de Izumo, a espada Kusanagi e o culto no santuário de Yasaka, em Quioto.

Nicholas Nishimura 9 min de leitura

Pintura em sumi-e de uma figura de espada sobre a rocha, diante de uma onda e de raios no céu.

Susanoo é o irmão que os compilados do século VIII não conseguem deixar quieto. A Encyclopedia of Shinto, no verbete de Kadoya Atsushi, o apresenta como um dos três filhos nobres, ao lado de Amaterasu e de Tsukuyomi. O sol e a lua têm um ofício legível. Ele, não. A enciclopédia o associa a vento e chuva, em contraste com os dois, e acrescenta que muitos traços da personalidade dele permanecem pouco claros. A matéria da irmã, neste portal, o descreve ligado ao mar e à tempestade. As duas frases cabem porque a própria fonte se recusa a fechar o verbete num único elemento. Quem o reduz a “deus da tempestade” escolhe um apelido e joga fora o aviso.

須佐之男命

Susanoo no Mikoto

O kami impetuoso dos compilados. No Kojiki nasce do nariz de Izanagi. No Nihon Shoki, o casal o gera junto com os outros kami.

O nome que a enciclopédia registra no Kojiki é Takehaya Susanoo no Mikoto. O verbete curto da mesma universidade, nos termos básicos do xintoísmo, o chama de irmão mais novo de Amaterasu Ōmikami e diz que ele não continha a própria força. Essa frase é o retrato popular. O verbete longo mostra que a desordem tem endereço, episódio e, no fim, um santuário.

Dois nascimentos, um desterro

O Kojiki faz Susanoo surgir do nariz de Izanagi, no banho com que o pai se lava da poluição de Yomi, o mundo dos mortos. O Nihon Shoki descreve outro começo: Izanagi e Izanami o produzem no processo de gerar os kami, o kamiumi. As duas contas o colocam no trio. Nenhuma das duas, sozinha, é “o” mito. São as duas que a corte pôs por escrito, e a enciclopédia as deixa lado a lado.

Izanagi ordena que o domínio dele seja a planície do mar. Susanoo quer outra coisa: visitar a mãe no Ne no kuni, o país das raízes. O resultado, no verbete, é o banimento. É o primeiro. Ainda não houve caverna, nem serpente, nem espada. Houve uma recusa de cargo. O céu, nesse relato, expulsa quem não assume o posto que lhe foi dado.

A matéria de Amaterasu conta o nascimento pela purificação e segue para a caverna. Esta fica no irmão, e por isso o primeiro desterro importa tanto quanto o segundo. Sem ele, Susanoo aparece já como vandalismo. Com ele, aparece como um kami que não aceita o mar que lhe entregaram.

A prova, o tumulto e a caverna

Expulso, ele sobe ao Takamanohara, a Planície do Alto Céu, para ver a irmã. A enciclopédia diz que foi suspeito de insurreição e submetido a uma prova de juramento, o ukei. Declarando-se vencedor, corre em desatino. O tumulto faz Amaterasu se esconder na caverna celeste. Por essa ofensa, ele é banido outra vez.

O que ele quebra, a matéria da irmã já nomeou com o Kojiki: diques de arroz, salão, tecelãs. Esta página não reabre a festa, o espelho nem a dança de Ame-no-Uzume. Isso é o mito dela. O que cabe aqui é a consequência para ele: o segundo desterro. A shimenawa que o Kojiki estende às costas da kami, para que a caverna não se feche de novo, é fronteira dela, não troféu dele. Ele é o motivo da escuridão. A corda é o que impede a escuridão de voltar.

O verbete básico resume os dois motivos numa frase só: banido da planície do alto céu por ter faltado ao domínio do mar e pelo ato de ultraje. O verbete longo separa as cenas. As duas leituras são da mesma casa, a Kokugakuin. Usar a curta na porta do santuário e a longa na mesa de estudo não é contradição. É o tamanho do texto.

A serpente de oito cabeças

Banido do céu, ele desce a Izumo, na “Terra Central das Planícies de Juncos”. O verbete da serpente, escrito por Matsunaga Naomichi, marca o lugar: o pico de Torikami, na cabeceira do rio Hi, na província de Izumo. A enciclopédia diz que se acredita tratar do monte Sentsū, no alto do rio Hii, na atual Shimane. “Acredita-se” fica na frase. Não vira GPS.

Ali um casal chora. No verbete da serpente os pais são Ashinazuchi e Tenazuchi, e a filha é Inadahime. No verbete de Susanoo, e na página do Yasaka, a jovem é Kushinadahime, ou Kushiinadahime. É o mesmo episódio com duas grafias de fonte. Ela ia ser comida por uma serpente enorme, de oito cabeças e oito caudas, olhos vermelhos como a lanterna-chinesa, corpo que cobria oito picos e oito vales. O nome Yamata no Orochi quer dizer serpente de oito bifurcações.

Susanoo se compadece, embebeda a besta com saquê de arroz e a mata. A enciclopédia não publica o número de tonéis. Quem acrescenta “oito barris” está completando o conto com uma simetria que essas páginas não escrevem. Da cauda sai a espada chamada Kusanagi, “a que ceifa a grama”. Ele a apresenta a Amaterasu. O verbete básico diz que essa espada é hoje uma das três insígnias imperiais, o sanshu no shinki. A matéria da irmã já trata o conjunto. Aqui a espada importa porque muda o irmão: o mesmo kami que desordenou o céu entrega a arma que o céu guarda.

Matsunaga registra leituras, e elas não são o enredo. Uma vê a história como figura dos arrozais: Inadahime seria a princesa do campo de arroz, e uma versão alternativa do Nihon Shoki chama a mãe de Inada no Miyanushi, senhora do palácio do arrozal. A serpente, nessa leitura, seria o próprio rio Hii, e a morte dela, o domínio da água para irrigar. Outra leitura sugere um bandido das montanhas. O mito também serve, diz o verbete, de origem lendária da Kusanagi entre as insígnias. Nenhuma dessas frases apaga as oito cabeças. Explica o que estudiosos fizeram com elas.

O Yasaka conta a cena em menos linhas. Susanoo desce a Izumo, encontra o casal e a filha que seria sacrifício à serpente, a serpente representa desastres, ele a derrota, livra Kushiinadahime-no-mikoto e a toma por esposa. Assim, diz o santuário, tornou-se famoso como divindade heroica. O santuário não discute irrigação nem bandido. Publica o herói que consagra.

Ordem em Izumo, desordem no céu

O verbete longo não para na espada. O Kojiki inclui um episódio em que Susanoo mata a deusa da comida, Ōgetsuhime, e desse ato nascem os grãos comestíveis. Inclui outro em que ele se torna senhor do submundo e impõe provas a Ōkuninushi, que o visita. São cenas de fonte, não de resumo escolar. Entram aqui para que o kami não caiba só na serpente.

Kadoya Atsushi fecha o contraste que organiza o verbete. No Alto Céu, os feitos de Susanoo são, sem exceção, perturbação da ordem. Em Izumo, ele é descrito como o kami que traz governo ordenado à região. As falas dele ali são chamadas mikotonori, proclamações de tipo imperial. O destruidor e o senhor são o mesmo nome em dois terrenos. O verbete básico traduz isso para o culto: ele se transforma numa divindade benévola e passa a ser invocado para a salvação diante do desastre.

Os fudoki não repetem o romance. O Izumo no kuni fudoki, diz a enciclopédia, não relata os mitos do Kojiki e do Nihon Shoki. Descreve Susanoo apenas como um kami entre muitos. Um trecho conservado do Bingo no kuni fudoki o associa a um kami de pestilência chamado Mutō. A partir do período medieval, ele foi com frequência identificado com Gozu Tennō. O verbete básico repete essa identificação e aponta o santuário: Yasaka Jinja, em Quioto, e o Gion.

Quem quer um vilão único não acha esse texto. Quem quer um herói sem mácula também não. O que as fontes entregam é um kami expulso duas vezes, depois senhor de uma terra, depois nome de peste e de proteção contra a peste. O culto mora nessa última volta.

O trio não vira três cultos do mesmo tamanho só porque nasceu junto. A enciclopédia gasta o verbete em Susanoo e nomeia Amaterasu e Tsukuyomi como os outros dois filhos nobres. Não descreve, nessa página, um santuário da lua nem um calendário de Tsukuyomi. A matéria da irmã já avisou que a lua ficou mais apagada nos relatos populares. Repetir o aviso impede uma trindade simétrica que esses verbetes não sustentam. São três no nascimento. Não são três salões iguais.

A identificação com Gozu Tennō, a partir da Idade Média, e a associação com Mutō, o kami de pestilência do trecho de Bingo, explicam por que o verbete básico o chama de divindade a quem se pede livramento do desastre. O pedido não apaga o tumulto do céu. Sucede a ele, no modo como a Kokugakuin organiza a história do nome. O Yasaka, ao pôr Susanoo no centro do salão e ao publicar uma festa contra epidemias, pratica essa última camada. A festa em si, com as datas de julho, não se conta aqui. Conta-se o motivo pelo qual o nome dele está naquele salão e não só na cauda de uma serpente.

Yasaka, e o que a visita pede

No centro do salão principal do Yasaka Jinja, em Quioto, está Susanoo-no-mikoto. Com ele, o santuário consagra Kushiinadahime-no-mikoto e os oito filhos, Yahashira-no-mikoto. O endereço que a página publica é Giommachi Kitagawa, Higashiyama, Quioto. O expediente do escritório, na mesma página, vai das 9 às 17 horas. Isso é o que o lugar diz de si. A lenda da fundação do edifício não está nessa página, e por isso não entra nesta matéria.

O torii da entrada é o portão de santuário, não um adorno do mito da serpente. O ofuda e o omamori, se a pessoa os receber no balcão, são objetos de jinja, com a regra de cada um já escrita nas matérias deles. Susanoo não “inventou” o amuleto. O santuário que o consagra usa o vocabulário que os outros jinja usam.

A festa desse santuário é o Gion. O verbete básico manda ver o Gion justamente por causa da identificação com Gozu Tennō e do pedido de livramento do desastre. O mês de julho, os carros e os mikoshi ficam na matéria de Quioto, porque a festa é da cidade tanto quanto do kami. Aqui basta o vínculo: o mesmo nome que o céu expulsou é o nome no centro do salão de onde sai o mikoshi.

Ler Susanoo só pela serpente produz um herói de espada. Ler só pelo tumulto produz um vilão de caverna. A Encyclopedia of Shinto escreve as duas metades e ainda a terceira, a do culto que pede proteção. O Yasaka escolhe a metade heróica e a põe no salão, com a esposa e os oito filhos. As duas escolhas são públicas. A matéria fica com as duas, e com o aviso de que o caráter dele, no verbete longo, não se deixa fechar.

Fontes

Perguntas frequentes

Quem é Susanoo?

Susanoo no Mikoto é um dos três filhos nobres de Izanagi, ao lado de Amaterasu e Tsukuyomi, nos relatos do Kojiki e do Nihon Shoki. A Encyclopedia of Shinto o associa a vento e chuva e ao domínio do mar, e avisa que muito do caráter dele permanece pouco claro.

Por que ele foi expulso do céu?

A mesma enciclopédia conta dois desterros. No primeiro, ele recusa o domínio do mar e quer visitar a mãe no país das raízes. No segundo, depois de uma prova de juramento com a irmã, ele desordena o céu, Amaterasu se fecha na caverna, e ele é banido de novo.

O que é a Yamata no Orochi?

É a serpente de oito cabeças e oito caudas que a Encyclopedia of Shinto descreve em Izumo. Susanoo a embebeda com saquê de arroz, mata-a e tira da cauda a espada Kusanagi, que oferece a Amaterasu. A espada entra nas insígnias imperiais.

Onde ele é cultuado?

O verbete básico da Kokugakuin diz que ele é identificado com Gozu Tennō e consagrado no Yasaka Jinja, em Quioto. O próprio santuário afirma que Susanoo-no-mikoto está no centro do salão principal, com Kushiinadahime e os oito filhos.