(Festivais)

Setsubun: a véspera da primavera e o feijão

Setsubun em dois verbetes de Kokugakuin e na página do Sensō-ji: 3 ou 4 de fevereiro, o tsuina, o feijão e a frase que o templo não diz.

Nicholas Nishimura 10 min de leitura

Pintura em sumi-e de uma máscara de oni ao lado de uma caixa de feijão, com grãos no chão.

Setsubun, no verbete de Endō Jun na Encyclopedia of Shinto, traduz-se como divisão sazonal. No origem, o termo referia-se a cada um dos dias anteriores ao primeiro dia da primavera, do verão, do outono e do inverno. Hoje, diz o mesmo verbete, só o dia anterior ao que marca o início da primavera, risshun, é chamado de setsubun. O glossário curto da mesma universidade, na entrada setsubun, comprime de outro jeito: o termo referia-se originalmente ao dia anterior a cada uma das divisões sazonais, e essas quatro, risshun, rikka, risshū e rittō, são descritas ali como os pontos médios entre cada equinócio e o solstício que o precede e o segue. As duas páginas concordam no “dia anterior” e no fato de que hoje só resta a véspera de risshun. Não concordam no que fazem com as quatro divisões. Uma fala nos dias anteriores aos primeiros dias das estações. A outra chama as próprias divisões de pontos médios. Esta matéria não escolhe uma geometria do céu. Imprime as duas frases.

節分

setsubun

A divisão da estação. Hoje, nos dois verbetes, a véspera da primavera.

As vinte e quatro, e o dia que ficou

O calendário lunar antigo, explica Endō Jun, não se ligava à órbita da Terra em volta do Sol e por isso não acompanhava a mudança real das estações. Para compensar, a longitude celeste foi dividida em 24 seções, alinhadas às estações, chamadas nijūshi-sekki, as vinte e quatro divisões sazonais. Quatro delas marcavam o dia anterior ao primeiro dia de cada estação: risshun, rikka, risshū e rittō, da primavera ao inverno. A véspera de risshun recebeu ênfase particular porque era tida como o começo do ciclo das vinte e quatro. Só esse dia passou a ser chamado de setsubun, com festividades próprias. O glossário acrescenta uma medida que o verbete longo não imprime: a véspera de risshun fica cerca de seis semanas antes do equinócio da primavera. Os dois imprimem o mesmo par de datas no calendário solar: 3 ou 4 de fevereiro. Nenhum dos dois imprime o dia 2 como terceira possibilidade permanente.

A matéria do oni, neste portal, data a festa em geral em 3 de fevereiro, às vezes em 2 ou 4. Essa frase é a da matéria do demônio. Não é a dos dois verbetes de Kokugakuin, que param em 3 ou 4. Uma página de templo, mais abaixo, traz um 2 de fevereiro num aviso de um ano certo. Não se cola esse 2 na definição da enciclopédia para “corrigir” o verbete, nem se apaga o verbete para fazer caber o aviso. São camadas com dono.

O tsuina, o pêssego e a véspera de ano

Os ritos que Endō Jun lista sob o setsubun são o tsuina e o mame-maki, o espalhar de feijão, também chamado mame-uchi. O tsuina é um exorcismo. Os participantes leem um tipo de proclamação aos kami chamado saimon e, armados de arcos e flechas e de clavas feitos de pessegueiro, perseguem figuras vestidas com máscaras de demônio, para expulsar a pestilência e outros desastres que se acreditava que elas carregassem. Por isso o evento também é chamado oniyarai, despacho do demônio, e nomes parecidos. O rito foi introduzido da China Tang e, na origem, realizava-se na véspera de Ano-Novo, ōmisoka. O glossário curto não descreve o tsuina. Para no feijão. Quem lê só o glossário não encontra o arco de pêssego nem a máscara. Quem lê o verbete longo encontra os dois ritos lado a lado.

A corte e os círculos de classe alta, diz o verbete, distinguiam o tsuina da véspera de Ano-Novo do lançamento de feijão no setsubun. A gente comum, em muitos lugares, não fazia essa separação. A distinção é social e de calendário, na página. Não é um mapa de províncias. O verbete não diz que a corte em questão é a de uma cidade que este portal já descreveu. Não se transporta o rito para a matéria de Quioto só porque a corte, noutros séculos, morou lá.

A corda de palha que marca outra virada do ano está na matéria da shimenawa. O tsuina, na origem que Endō Jun dá, caía na véspera de Ano-Novo. O setsubun de hoje, nos dois verbetes, é a véspera da primavera, em fevereiro. As duas datas não são a mesma festa com dois nomes. O verbete explica por que a véspera de risshun ganhou o nome sozinha: era o começo do ciclo das vinte e quatro divisões. A corda de janeiro continua sendo a corda de janeiro.

O feijão do Muromachi e a sardinha na porta

O mame-maki, espalhar feijão torrado para expulsar espíritos maus, parece ter começado no período Muromachi, 1392–1573. “Parece ter começado” é o verbo do verbete. Não é uma ata do primeiro lançamento. O glossário diz apenas que os eventos do dia incluem mamemaki, lançar feijão para exorcizar espíritos maus. Não dá o século. Não diz que o feijão é torrado. O torrado está no verbete longo. As duas páginas nomeiam o mesmo gesto com grafias próximas, mame-maki e mamemaki. Uma data. A outra não. Não se empresta 1392 ao glossário, nem se tira o século do verbete porque o glossário é mais curto.

Outro costume de setsubun, só no verbete longo, é o yaikagashi: cabeças de sardinha espetadas em ramos de azevinho e penduradas nas portas, para expulsar os demônios. O glossário não menciona sardinha nem azevinho. A página do Sensō-ji que se lê abaixo também não, no trecho do rito dela. O yaikagashi fica como costume que Endō Jun registra, não como obrigação de toda casa que atira feijão.

Os eventos de setsubun nos santuários chamam-se setsubunsai. Em muitos casos, diz o verbete, conduz-se ou o tsuina ou o rito do feijão, e a forma específica varia de santuário para santuário. O torii marca a fronteira do jinja quando o rito é de santuário. Não diz qual dos dois gestos aquele santuário escolheu. A página de Endō Jun avisa que a forma varia. Perguntar ao lugar continua sendo o modo de não aplicar um rito no terreiro que publica outro.

A outra festa com matéria própria neste portal é sakura e hanami. Ela lê a flor e o calendário da árvore. O setsubun lê a véspera da primavera e o feijão. As duas cabem no mesmo ano sem dividir um dia. Uma é fevereiro, nos verbetes, em 3 ou 4. A outra é a estação da flor, com a previsão que a matéria dela cita de quem mede a árvore.

O que o Sensō-ji publica, e o que não é o verbete

A página japonesa do rito do Sensō-ji, a reunião chamada setsubun-e, abre com uma definição que não repete a de Endō Jun. Setsubun, diz ela, designa na origem os quatro pontos de separação das estações: risshun, rikka, risshū e rittō. Não diz, nessa frase, “o dia anterior”. Diz os quatro pontos. Porque risshun fica perto do dia de ano-novo do calendário lunar, a partir do período Edo a véspera de risshun fixou-se como setsubun, um dia especial para celebrar o ano novo e para afastar o infortúnio. São três compressões, agora, se se conta o glossário. Endō Jun: o termo era cada véspera, e só a da primavera ficou. O glossário: o termo era a véspera de cada divisão, e hoje é a de risshun, cerca de seis semanas antes do equinócio, ou 3 ou 4 de fevereiro. O templo: o termo eram os quatro pontos, e a véspera da primavera fixou-se a partir de Edo. Não se funde “pontos” com “vésperas” numa origem única. Cada página assina a sua.

A mesma página do templo diz que há diferenças conforme a região, mas que no dia se lançam feijões para afastar os demônios maus, e que se diz que comer os grãos lançados, um a mais do que a idade, traz um ano sem doença. O “diz-se” e a ressalva regional estão impressos. Não estão no verbete de Endō Jun nem no glossário. A matéria do oni repete a idade mais um como gesto da casa. Esta matéria deixa esse gesto onde a página do templo o pôs: uma coisa que se diz, com variação de lugar, não a definição dos dois verbetes. Quem come o grão a mais segue essa página, ou a casa que o pratica. Não segue uma linha que Kokugakuin não imprimiu.

O templo afirma que foi o primeiro em Edo a realizar o rito em grande escala. “O primeiro” é a frase da página do Sensō-ji. Não é uma contagem da enciclopédia. O setsubun-e atual, diz a mesma página, tem como evento principal o lançamento de feijão pelos toshi-otoko, os homens do ano. No dia, o abade do monte do templo e os toshi-otoko escolhidos fazem uma procissão desde o Denbō-in até o salão principal. Do palco armado no lado leste do salão, eles lançam os feijões. Durante a cerimônia também há lançamento dentro do salão. Em seguida, no palco especial do lado leste. Diante do salão, as crianças do jardim de infância do templo também lançam. Depois do lançamento dos toshi-otoko no palco, apresenta-se o Fukuju no mai, a dança dos sete deuses da fortuna, uma das três danças do templo, sob organização da federação de turismo de Asakusa. Gente do espetáculo ligada a Asakusa também lança feijão, e a página diz que isso alegra quem visita. Do fim do Ano-Novo até o setsubun, concede-se um papel recortado de afastar o desastre e chamar a fortuna, a placa de setsubun e de risshun.

A frase muda, e a página explica por quê. Como não há oni diante de Kannon, não se diz “oni wa soto”. Diz-se “senshū banzai, fuku wa uchi”. A página inglesa do templo, no calendário, situa o rito por volta de 3 de fevereiro e traduz o costume: não se diz o tradicional “Demons out”; diz-se vida longa e boa fortuna, porque não há demônios perto de Kannon. A inglesa não imprime os caracteres da frase japonesa. A japonesa não imprime “por volta de 3 de fevereiro”. A grade do ano litúrgico, na página dos ritos anuais, põe a reunião de fevereiro na linha do mês 2 e, na célula da data, escreve setsubun, não um número. O salão, nessa linha, é o principal. “Por volta de 3” é a página inglesa. A palavra setsubun no lugar do dia é a grade. A frase longa é a página do rito. As três se leem juntas sem eleger um número que a grade não deu.

No topo da página do rito permanece um aviso datado de 2 de fevereiro do ano 3 da era Reiwa, uma terça-feira: naquele setsubun-e, por prevenção da infecção, cancelam-se o lançamento de feijão e a dança Fukuju, e a cerimônia, diferente do ano habitual, faz-se só às 14h. O ano 3 de Reiwa é 2021. O aviso descreve aquele dia. Não descreve o rito que os parágrafos seguintes chamam de atual, com procissão, palco, crianças e dança. Deixar o aviso no lugar impede tratar 2 de fevereiro de 2021 como a data permanente, e impede tratar o cancelamento como a regra de agora. O verbete de Endō Jun, que imprime 3 ou 4, não menciona esse aviso. O aviso não reescreve o verbete. Mostra que um ano do templo caiu no dia 2, dentro de uma nota que ainda está no alto da página.

O que se leva dessas páginas é um dia com mais de uma definição de origem, um feijão que a enciclopédia situa no Muromachi com um “parece”, um tsuina de pêssego que o glossário não conta, e um templo que publica a própria frase e o próprio palco. A casa que não diz “oni wa soto” não está só no guia. Está na página do Sensō-ji, com a razão que o templo dá: diante de Kannon, o demônio não se manda embora. O demônio que outros lugares expulsam continua na matéria do oni. O fevereiro deste verbete continua em 3 ou 4, salvo o ano que o templo datou à parte.

Fontes

Perguntas frequentes

Em que dia cai o Setsubun?

O verbete de Endō Jun e o glossário de Kokugakuin imprimem 3 ou 4 de fevereiro. Nenhum dos dois imprime o dia 2 como regra. Uma nota do Sensō-ji, ainda no topo da página do rito, data a reunião de 2 de fevereiro do ano 3 da era Reiwa, isto é, 2021.

O que se atira, e desde quando?

O verbete chama o rito de mame-maki ou mame-uchi: espalhar feijão torrado para expulsar espíritos maus. Parece ter começado no período Muromachi, 1392–1573. O glossário curto só nomeia o lançamento de feijão. Não data o período.

O que o Sensō-ji diz no lugar de “oni wa soto”?

A página japonesa do rito diz que, como não há oni diante de Kannon, não se diz “oni wa soto”. Diz-se “senshū banzai, fuku wa uchi”. A página inglesa do templo traduz o costume como vida longa e boa fortuna, por volta de 3 de fevereiro.

Comer um feijão a mais do que a idade está na enciclopédia?

Não está no verbete de Endō Jun nem no glossário. Está na página do Sensō-ji como coisa que se diz, com diferenças conforme a região: comer um grão a mais do que a idade traria um ano sem doença. É um “diz-se” dessa página, não a definição dos dois verbetes.