(Costumes)

Sakura e hanami: a flor que o mapa mede

Como a meteorologia do Japão marca a abertura e o auge da cerejeira, o que é a somei-yoshino, e o hanami que a JNTO descreve em parques.

Nicholas Nishimura 9 min de leitura

Pintura em sumi-e de um galho de cerejeira em flor, com pétalas caindo.

Sakura é a cerejeira, e hanami é o gesto de olhar a flor. A Japan National Tourism Organization descreve a estação como o momento em que o rosa pálido atravessa o país e as pessoas se juntam para receber o tempo mais ameno. Parques e jardins viram lugar de piquenique, com família e amigos, debaixo das árvores. Rios, canais e fossos também se enfeitam, e a página sugere o passeio a pé ou de barco. O auge, diz ela, costuma ir do fim de março ao começo de abril, e muda com o lugar e com o ano. A flor começa no sul e segue para o norte, podendo chegar a Hokkaido ainda em maio. Isso é o quadro de viagem. A medida, quem publica, é a Agência de Meteorologia.

花見

hanami

Olhar a flor. Na prática que a JNTO descreve, o olhar muitas vezes inclui o piquenique debaixo da árvore.

Uma previsão do ano em curso não entra nesta matéria. O quadro da agência se atualiza várias vezes ao dia entre dezembro e junho. Copiar uma linha hoje seria mentir amanhã. O que permanece é o critério, a variedade que o mapa usa, e a normal climatológica.

Cinco ou seis flores, e oitenta por cento

O FAQ da agência define a observação fenológica: o estado da planta muda com a estação, e o fim da medida é saber se a estação anda adiantada ou atrasada, e como o clima difere e muda. Para a abertura, o guia de observação diz que a flor da planta em causa está aberta quando algumas flores se abriram. No caso de espécies com muitas flores, e a sakura é o exemplo, são cinco ou seis. Nas outras espécies, duas ou três.

A folha “dia de abertura e dia de auge da cerejeira” aperta o parafuso: a abertura é o primeiro dia em que, na árvore-amostra, cinco ou seis flores ou mais se abriram. O auge é o primeiro dia em que, nessa mesma árvore, cerca de 80% ou mais dos botões se abriram. O FAQ explica o 80%. Numa árvore grande, saber se cada flor abriu é, na prática, impossível. Julgar 100% é difícil, e o estado pode mudar no espaço de um dia. O limiar ficou na faixa em que uma pessoa tende a sentir que está no auge: cerca de 80% ou mais.

Não é um feeling de quem passa no parque. É a regra de uma árvore marcada, a amostra, lida por esse critério. Duas cidades podem “estar floridas” para o passeio e em dias diferentes para o mapa. As duas coisas são verdade, em escalas diferentes.

A variedade que o mapa acompanha

O FAQ diz por que a somei-yoshino é a espécie observada: para comparar lugares entre si e o mesmo lugar ao longo do tempo, escolhe-se uma planta espalhada pelo país e de interesse geral. Na cerejeira, a mais comum é a somei-yoshino. Onde ela não é a comum, em parte de Hokkaido, a substituta é a ezo-yamazakura. Nas ilhas do sudoeste, a higan-zakura.

A folha da agência diz o mesmo com outras palavras. O alvo é sobretudo a somei-yoshino. É uma variedade que começa no fim do período Edo. Diz-se que está plantada de Kyushu até por volta da planície de Ishikari, em Hokkaido. E afirma, em frase direta, que a somei-yoshino é um cruzamento de edo-higan e oshima-zakura. Onde ela não se desenvolve, observam-se higan-zakura e ezo-yamazakura. O “diz-se” da folha cobre o alcance do plantio. O cruzamento vai sem essa ressalva, porque a frase da agência não a põe.

A mesma folha publica as normais de 1991 a 2020, nas linhas de mesma data do mapa, não uma previsão. A abertura da higan-zakura começa por volta de meados de janeiro em Okinawa e Amami. A somei-yoshino abre no fim de março em Kyushu, Chugoku, Shikoku, Kinki, Tokai e Kanto. Por volta de 10 de abril alcança Hokuriku e o sul de Tohoku. Segue pelo norte de Tohoku e, em meados de maio, chega ao norte da costa do mar do Japão em Hokkaido e ao leste da costa do Pacífico.

O auge, ainda nas normais, começa no começo de fevereiro para a higan-zakura em Okinawa e Amami. Para a somei-yoshino, o fim de março traz o norte de Kyushu, o Pacífico de Shikoku e parte de Kanto. Por volta de 10 de abril a linha alcança Kyushu, Chugoku, Shikoku, Kinki, Chubu, Tokai, Kanto e o oeste de Hokuriku. Por volta de 20 de abril, o leste de Hokuriku e o sul de Tohoku. Em meados de maio, o lado do mar de Okhotsk e o leste do Pacífico em Hokkaido.

São médias de trinta anos. Um abril frio as atrasa. Um março quente as adianta. A JNTO diz a mesma coisa em linguagem de viagem: depende do lugar e do ano, do sul para o norte, Hokkaido podendo ficar para maio. Quem marca passagem com a normal de 10 de abril no bolso marcou a média, não o céu daquele dia.

O “em geral” da página de turismo e o dia da árvore-amostra também não são a mesma conta. A JNTO fala em fim de março a começo de abril como auge típico do país, e depois dá janelas por parque. A agência marca o primeiro dia em que a amostra cruzou cinco ou seis flores, e outro dia em que cruzou cerca de 80%. Um parque pode estar bonito para o piquenique antes de a amostra oficial da cidade cruzar o limiar, ou continuar cheio depois. As duas páginas servem a perguntas diferentes. Esta matéria não cola uma na outra para fabricar “o” dia de Quioto ou “o” dia de Tóquio.

Onde a JNTO manda olhar

A página australiana da JNTO escolhe nove lugares. Não são os únicos, e a ordem não é um ranking deste portal. Servem para ver a onda que a meteorologia descreve.

Em Kawazu, na costa leste da península de Izu, a kawazu-zakura costuma abrir em fevereiro, quase um mês antes das outras cerejeiras da região de Tóquio, com pétalas grandes e de rosa vivo. É cedo, e não é a somei-yoshino do mapa. A página a trata como a flor antecipada do leste.

O monte Yoshino, em Nara, na serra de Omine, é patrimônio mundial na descrição da JNTO, com mais de 30 mil árvores nas faixas baixa, média, alta e interna. A página diz que esses quatro bosques teriam sido plantados de propósito para florir em momentos diferentes e alongar a estação. “Teria” fica, porque a frase é “are said to”. O monte também é lugar do shugendō, com santuários e templos que a página nomeia: Yoshino Mikumari, Kinpu, Kinpusenji, Yoshimizu. A flor e o caminho de fé dividem a serra. Não são a mesma visita.

Em Quioto, o parque Maruyama é um dos pontos que a JNTO indica. A página do parque o chama de o mais famoso da cidade para a cerejeira e marca a primeira metade de abril, com a cerejeira-chorão iluminada à noite. Os ônibus 100 e 206, da estação até Gion, levam cerca de 20 minutos. A página de destino, à parte, reserva o fim de abril e maio para a yaezakura, a flor dobrada e tardia, e para o bordo novo, nos jardins de santuário e de templo. Duas janelas, duas páginas. Fushimi Inari Taisha é um desses santuários da cidade, com a própria matéria. Esta não lhe inventa um dia de flor.

Em Tóquio, o fosso de Chidorigafuchi, a noroeste do palácio imperial, tem um passeio verde de 700 metros que a JNTO põe entre os principais da cidade. Centenas de árvores, de variedades diferentes. Dá para ir a pé ou de barco a remo. À noite as árvores são iluminadas. A época que a página chama de típica é do fim de março ao começo de abril, a mesma faixa larga do começo do texto.

Mais ao norte, o parque do castelo de Hirosaki, em Aomori, tem cerca de 2.600 cerejeiras de 50 variedades ao longo do fosso oeste, festa própria, e um auge que a JNTO situa em geral do fim de abril ao começo de maio. Em Hakodate, o parque Goryokaku tem mais de 1.500 árvores, e a página manda subir à torre para ver o forte em estrela. O auge típico ali também vai do fim de abril ao começo de maio. Os dois lugares ilustram, no idioma da JNTO, o que a normal da agência desenha: o norte floresce depois.

No monte Shiude, em Kagawa, a página fala em cerca de mil árvores e num monte de 352 metros, com o mar Interior de Seto ao fundo. Em Asahi, Toyama, mais de 280 árvores na margem do rio Funakawa, com tulipa e nanohana, e um auge em geral do começo ao meio de abril. São números da JNTO, cada um no seu parágrafo. Não se somam num total do país.

O piquenique debaixo da árvore pede uma comida que se coma sem mesa. O onigiri cabe nesse intervalo: arroz na mão, entre o passeio e o barco. Não é o prato obrigatório do hanami. É o que não exige que a pessoa esteja sentada num restaurante enquanto a flor dura pouco.

O aniversário do Buda é outro dia

No Sensō-ji, em Asakusa, 8 de abril é Hana Matsuri, a festa da flor no calendário do templo: aniversário do Buda, chá de hortênsia sobre a estátua. O nome tem flor. O rito não é olhar cerejeira. As datas podem cair perto uma da outra, sobretudo se a somei-yoshino de Kanto estiver na janela do fim de março ao começo de abril. Perto não é igual. Quem vai ao templo nesse dia vai ao aniversário. Quem estende a lona no parque vai ao hanami. Os dois cabem na mesma semana sem serem a mesma festa.

O torii que se atravessa para chegar a um parque, como no caminho do Yasaka para Maruyama, continua sendo portão de santuário no meio do passeio. A flor não suspende a etiqueta do portão.

O que esta página não marca no calendário

Não marca o dia deste ano em Tóquio, nem em Quioto, nem em Sapporo. Não converte a normal de 1991–2020 em promessa de viagem. Não trata a kawazu-zakura de fevereiro como se fosse a somei-yoshino do mapa. Não chama de hanami o chá sobre a estátua.

O que marca é o método: árvore-amostra, cinco ou seis flores, cerca de 80%, somei-yoshino salvo onde a agência diz que outra espécie entra, cruzamento de edo-higan e oshima-zakura na frase da folha, e uma onda que as normais desenham de janeiro no sul a meados de maio no norte. O piquenique, a iluminação e a contagem de árvores ficam com a JNTO, no lugar em que ela os publicou. A flor do ano em que você viaja pede a tabela daquele dia, não esta página.

Fontes

Perguntas frequentes

Quando a cerejeira 'abre', para a meteorologia?

O FAQ da Agência de Meteorologia do Japão diz que, para a sakura, a abertura é quando cinco ou seis flores se abriram. A folha da mesma agência precisa: o primeiro dia em que isso acontece na árvore-amostra. O auge é o primeiro dia em que cerca de 80% ou mais dos botões dessa árvore se abriram.

Por que o auge não é 100%?

O FAQ responde que, numa árvore grande, saber se cada flor abriu é impraticável, e que o estado muda ao longo de um dia. O critério ficou em cerca de 80% ou mais, a faixa em que uma pessoa tende a sentir que a árvore está no auge.

Hanami é o Hana Matsuri?

Não. Hanami, nas páginas da JNTO, é olhar a flor, muitas vezes num piquenique. O Hana Matsuri do Sensō-ji é 8 de abril, o aniversário do Buda, com chá de hortênsia sobre a estátua. As datas podem se cruzar no calendário. Os ritos não são o mesmo.

Esta página diz quando a flor abre este ano?

Não. A tabela ao vivo da Agência de Meteorologia muda várias vezes por dia na estação. O que fica aqui são o método e as normais climatológicas de 1991 a 2020, publicadas na folha da agência, mais os parques que a JNTO descreve sem transformar o passeio numa previsão.