(Kami)
Tsukuyomi: a lua dos três filhos nobres
Tsukuyomi na enciclopédia de Kokugakuin: o olho direito, a noite ou o mar, e o episódio em que a lua mata o kami da comida.
Tsukuyomi no Mikoto, no verbete de Mori Mizue na Encyclopedia of Shinto, é o segundo dos três filhos nobres de Izanagi e Izanami. Em geral é tratado como kami masculino, com domínio sobre a noite. O nome tsuku-yomi é pensado, no mesmo verbete, como ligado de origem ao calendário lunar: yomu é ler, tsuki é a lua, e o conjunto lê as fases. O Kojiki e o Nihon Shoki, que o verbete cita o tempo todo, não entregam essa lua numa cena única. A matéria da irmã, Amaterasu, já registrou o apagamento dela nos relatos populares. Esta matéria fica com o verbete que guarda as variantes.
月読
Tsukuyomi
Outros nomes que Mori Mizue lista: Tsuki no kami, no Nihon Shoki; Tsukiyomi no mikoto; Tsukiyumi no mikoto, também no Nihon Shoki. A forma do título do verbete é Tsukuyomi. As outras não são erros de grafia a corrigir. São nomes que a enciclopédia atribui aos compilados. Quem escolhe um só para “o nome verdadeiro” faz um trabalho que a página não faz.
O segundo, e o que o Kojiki não repete
O lugar dele no trio é o segundo. O primeiro ofício legível, na frase de abertura, é a noite. O irmão que a enciclopédia de Susanoo trata à parte está na matéria de Susanoo. Aqui o que importa é o que o verbete da lua diz sobre os três, não o que o verbete do irmão deixa de dizer. Mori Mizue não descreve uma personalidade tempestuosa para Tsukuyomi. Descreve domínio, nascimento e um episódio que o Kojiki não repete.
No Kojiki, diz o verbete, Tsukuyomi não volta a aparecer depois do anedota do nascimento. A lua nasce e, nesse compilado, sai de cena. O peso que a irmã ganha na caverna, na corda e em Ise não tem, nesse silêncio, um equivalente lunar. A corda da caverna é a história da filha, contada na matéria da shimenawa. Não é um rito de Tsukuyomi. Registrar o silêncio do Kojiki evita inventar uma continuação que o verbete diz não existir nesse livro.
O Nihon Shoki, no mesmo verbete, não acompanha esse silêncio. Uma escrita alternativa conta que Tsukuyomi morou com Amaterasu no céu e, depois de matar o kami da comida, foi condenado e separado. Outra linha entrega o mar. A principal entrega o céu, como complemento do sol. São contas do mesmo nome. Não são capítulos de uma biografia única que a enciclopédia tenha costurado.
Mais de um nascimento
O nascimento que a matéria da irmã resume cabe numa frase do verbete, e ela não é a única. Segundo o Kojiki e uma escrita alternativa do Nihon Shoki, Tsukuyomi veio a ser quando Izanagi lavou o olho direito, na ablução. O olho esquerdo, no par que os dois artigos deste portal já usam, é o da kami do sol. O verbete de Mori Mizue confirma o lado: direito, lua. Não acrescenta, nessa frase, o rio ou o mar da ablução. A matéria do par já registrou que as fontes curtas e longas não concordam sobre a água. Esta não reabre essa disputa. Fica no olho.
A encomenda que se segue muda conforme o compilado. Izanagi confia a Tsukuyomi o domínio, variavelmente, do mar, no Nihon Shoki, ou do reino da noite, no Kojiki. Mar e noite não são a mesma frase. O verbete as põe juntas com a palavra “variavelmente”. Escolher o mar e apagar a noite, ou o contrário, é fechar o que a página deixou aberto.
Na conta principal do Nihon Shoki, Tsukuyomi é produzido em conjunto por Izanagi e Izanami, e é confiado ao céu como complemento da kami do sol. Aqui os dois progenitores produzem. Não é o olho lavado de um só. O céu, nessa conta, é o lugar da encomenda, ao lado do sol, não o mar e não a frase “reino da noite” do Kojiki. Três destinos já apareceram: mar, noite, céu. A enciclopédia não elege um.
Noutra escrita alternativa do Nihon Shoki, Tsukuyomi surge do espelho de cobre branco que Izanagi segura na mão direita. De novo a direita. De novo um objeto, não o olho. O verbete junta essas gêneses numa leitura: olho esquerdo contra olho direito, mão esquerda contra mão direita, sol contra lua. Essa justaposição, diz Mori Mizue, tende a concordar com a interpretação de Tsukuyomi como contraparte masculina de Amaterasu, que é comumente considerada feminina. “Tende a concordar” e “comumente considerada” são as cautelas da página. Não são uma certidão de sexo dos kami. A matéria repete as cautelas. Não as troca por uma ficha de família.
O espelho de cobre branco não é, nesse verbete, o espelho que outras histórias usam para tirar a kami do sol da caverna. Mori Mizue não faz essa identificação. Esta matéria também não. O objeto fica onde a frase o pôs: na mão direita, na escrita alternativa, como origem da lua.
Ukemochi e a noite que se separa
O episódio que tira Tsukuyomi do céu não está no Kojiki, pelo que o verbete afirma. Está numa escrita alternativa do Nihon Shoki. Mori Mizue a resume: ele morava com Amaterasu no céu; depois de matar Ukemochi, o kami dos alimentos, foi condenado por Amaterasu como “kami mau” e forçado a viver apartado do sol. O resultado é a separação do dia e da noite. O resumo cabe num parágrafo. O verbete de Ukemochi, assinado por Nakayama Kaoru, conta a cena com os objetos que o resumo não lista. As duas páginas são da mesma enciclopédia. Uma comprime. A outra abre. Esta matéria não funde as duas num texto só sem dizer qual frase é de quem.
Ukemochi no kami, no verbete de Nakayama, aparece numa escrita alternativa citada dentro do Nihon Shoki. O nome uke é sinônimo de uka, “comida”. Ukemochi no kami significa, por isso, um tutelado dos alimentos. Algumas teorias sugerem que esse kami é idêntico a Ōgetsuhime. O verbete registra a teoria. Não a transforma em identidade fechada. Ōgetsuhime fica como nome que outras leituras aproximam, não como segunda pessoa que esta página obrigue a cultuar.
Segundo o Nihon Shoki, nessa escrita, Amaterasu ordenou que Tsukuyomi fosse até Ukemochi. Ukemochi produziu alimentos da boca: coisas largas de barbatana e coisas estreitas de barbatana, coisas ásperas de pelo e coisas macias de pelo. Apresentou tudo em cem mesas, como banquete para Tsukuyomi. A produção é da boca. O número das mesas é cem. Os quatro grupos de seres são os que a página nomeia. Não há, nesse parágrafo, uma lista de espécies com nome de peixe ou de caça.
Tsukuyomi irou-se por lhe servirem alimentos “poluídos”, porque tinham saído da boca de Ukemochi. Sacou a espada e a matou. O verbete usa o feminino para Ukemochi nessa sequência: a boca dela, o corpo morto dela. O motivo da ira é a poluição que ele vê na origem oral da comida, não uma ofensa que a página descreva em diálogo. Não há fala de Ukemochi impressa no verbete. Há o banquete, a ira e a espada.
Amaterasu, ao saber, enviou Amenokumanoushi para investigar. Do corpo morto saíram bois e cavalos da cabeça, arroz do ventre, trigo e feijão dos genitais. Amenokumanoushi levou esses itens a Amaterasu. Ela se alegrou e disse que os alimentos serviriam para nutrir os seres humanos. Plantou os grãos e as sementes em campos e arrozais. Nakayama Kaoru fecha: a história é dita representar um tipo de mito de origem dos alimentos. “Um tipo” deixa outros mitos de comida no lugar deles. Este não é promovido a versão única.
O verbete de Tsukuyomi chama o mesmo ato de condenação como kami mau e de separação do dia e da noite. O de Ukemochi não repete a frase “kami mau” nem a separação. Para com a plantação. Quem lê só um dos dois perde ou a mesa ou o céu partido. Os dois cabem porque são dois verbetes do mesmo episódio, com cortes diferentes. O Kojiki, insiste Mori Mizue, não traz Tsukuyomi de novo depois do nascimento. A morte de Ukemochi não se importa para dentro do Kojiki por simetria.
O mar, a colheita e o santuário que tem nome
O registro do imperador Kensō no Nihon Shoki, ainda no verbete de Mori Mizue, inclui um episódio em que um médium humano entrega um oráculo do kami da lua: terra deve ser oferecida ao kami Takamimusuhi. A página não data o reinado, não descreve o médium e não diz o tamanho da terra. O que imprime é o oráculo e o destinatário. Takamimusuhi recebe a oferta que a lua pede. Tsukuyomi, nesse trecho, fala por um médium. Não é a cena do olho nem a cena da espada. É uma terceira aparição, no compilado do reinado, e a enciclopédia a deixa curta. Alongar o imperador com um século que a página não deu seria outra fonte.
O mesmo verbete tira uma consequência dos traços que a escrita alternativa acumulou. Descrever Tsukuyomi como governante do mar e como matador do kami da comida dá a ele características em comum com Susanoo. A matéria do irmão, neste portal, já avisou que o verbete de Susanoo não descreve um santuário da lua. O aviso continua válido: a página do irmão não é a página do culto lunar. O que a página da lua acrescenta é o parentesco de traços, não um santuário compartilhado. Mar, numa das encomendas. Morte do kami da comida, na escrita alternativa. São os dois pontos de contato que Mori Mizue nomeia. Não são uma fusão dos dois kami.
A segunda consequência é agrícola, e vem com o verbo que a enciclopédia escolhe. Considerando o tema da morte do kami da comida e a relação da lua com a colheita no calendário lunar, Tsukuyomi pode ser considerado um tutelado da agricultura. “Pode ser considerado” não é “é o kami do arroz”. O arroz, no verbete de Ukemochi, sai do ventre e é plantado por Amaterasu. O patrocínio agrícola da lua é uma leitura que Mori Mizue autoriza com esse verbo, a partir do calendário e do episódio. Não é um cargo impresso num santuário, nessa frase.
O culto que a página nomeia sem esse condicional é outro. Tsukuyomi é o objeto de culto, saijin, no santuário destacado, betsugū, Tsukuyomi no Miya, dos Grandes Santuários de Ise, Ise Jingū. Também o é em vários santuários listados no Engishiki, os shikinaisha, nas áreas de Yamashiro e de Ise. O verbete para aí. Não dá endereço postal, horário, oferta em ienes nem a ordem dos salões. Esta matéria também para. Nomear Ise sem inventar uma visita é o limite do que a página sustenta.
Outros santuários deste portal têm matéria de chão: a montanha de Inari está em Fushimi Inari Taisha, e a floresta de Yoyogi está no Meiji Jingū. Nenhum dos dois é o Tsukuyomi no Miya. Servem para quem quer o gesto de subir um recinto que o portal já descreveu com a página do próprio lugar. O da lua, aqui, fica no que a enciclopédia afirma: destacado de Ise, e mais os do Engishiki em Yamashiro e em Ise.
O que não se faz com esses dois verbetes é uma trindade simétrica. Três filhos nobres nascem. O Kojiki larga a lua depois do olho. Uma alternativa do Nihon Shoki a separa do sol depois da espada. O culto nomeado existe, e o verbete não mede o tamanho dele contra o de Ise da irmã. A matéria da irmã já tinha dito que a lua ficou mais apagada nos relatos populares. O verbete de Mori Mizue não desmente o apagamento no Kojiki. Acrescenta as alternativas, o oráculo de Kensō e os santuários. São acréscimos com dono. Não são uma promoção da lua ao mesmo salão do sol.
Fontes
Perguntas frequentes
Quem é Tsukuyomi nos compilados?
No verbete de Mori Mizue, é o segundo dos três filhos nobres de Izanagi e Izanami, em geral tratado como kami masculino com domínio sobre a noite. O Kojiki e o Nihon Shoki não contam o nascimento dele numa frase só.
De que olho ele nasce?
Num relato do Kojiki e numa escrita alternativa do Nihon Shoki, ele surge quando Izanagi lava o olho direito. O olho esquerdo, no mesmo gesto, é o da irmã do sol. A enciclopédia também registra outros nascimentos, e esta matéria não escolhe um.
Por que o dia se separa da noite?
Uma escrita alternativa do Nihon Shoki, resumida no verbete de Tsukuyomi e contada no de Ukemochi, diz que ele matou o kami da comida. Amaterasu o condenou como kami mau e o obrigou a viver à parte. Dessa separação vêm o dia e a noite.
Onde a enciclopédia diz que ele é cultuado?
No santuário destacado Tsukuyomi no Miya, do Grande Santuário de Ise, e em vários santuários do Engishiki nas áreas de Yamashiro e de Ise. O verbete nomeia esses lugares. Não publica horário de visita.