(Símbolos)
Komainu: o leão e o cão-leão à porta do santuário
O komainu no texto de Shiro Ito, de 1995, e no verbete curto: leão, cão-leão, madeira, pedra e metal. As duas páginas não imprimem o a-un.
Komainu, no texto que Shiro Ito publicou no dicionário do Museu Nacional de Quioto, é o guardião que se vê do lado de fora dos portões de muitos santuários japoneses. O verbete curto Koma-inu, em Basic Terms of Shinto, da Universidade Kokugakuin, cabe numa frase: cães coreanos, de origem um par de animais esculpidos colocados num santuário ou perto dele, como guardiões. As duas páginas falam do par à porta. Não dizem as mesmas coisas sobre a boca, sobre o material e sobre o que o par deixou de ser. Esta matéria não junta as duas numa ficha só.
狛犬
Komainu
Onde estavam, e de que matéria
O texto de Ito foi emitido em 11 de fevereiro de 1995. A tradução inglesa é de Melissa M. Rinne. O título inglês da página é Lion-Dogs. A primeira pergunta que Ito faz ao leitor é se já viu uma escultura de cão-leão. São os guardiões do lado de fora dos portões de muitos santuários. O portão, como tipo, está na matéria do torii. Ito não descreve o vermelhão, nem a maré, nem a etiqueta de passar. Descreve o bicho que fica nesse tipo de entrada.
Tais cães-leão, segue ele, são em geral de pedra. As esculturas de que a página vai falar, porém, são de madeira. A razão: nos períodos Heian e Kamakura, do fim do século VIII até o século XIV, os cães-leão ficavam não do lado de fora, como hoje, mas do lado de dentro, debaixo dos telhados do portão ou dos edifícios do santuário. Naqueles dias, quase todos os edifícios e as esculturas budistas ou xintoístas eram de madeira, e naturalmente os cães-leão também. Mais tarde, quando passaram para fora, passaram a ser feitos de pedra, para aguentar melhor o tempo. A mudança que a página conta é de lugar e de matéria. Dentro e madeira. Fora e pedra. “Em geral de pedra” é o hoje. A madeira é o objeto antigo de que o museu fala, e a razão histórica que Ito dá para ela.
O verbete curto não conta essa mudança. Diz que são feitos de madeira, pedra ou metal. O metal está nessa frase e não está no texto de Ito. Ito não imprime bronze, nem ferro, nem uma liga. Quem ler só o museu não encontra o metal. Quem ler só o verbete não encontra o telhado nem o século em que o par saiu para o pátio. “De origem” e “mais tarde”, no verbete, cabem noutra frase: importados do continente asiático, mais tarde assumiram significado decorativo. “Decorativo” é do verbete. Ito fala em guardiões, em influência de leões de templo, e em pedra para aguentar o tempo. Não diz que o par se tornou enfeite. O significado decorativo fica na página curta. Não se cola em Ito para suavizar a função de guarda.
A página do museu imprime, no pé, o endereço 527 Chaya-cho, Higashiyama-ku, Kyoto 605-0931, e o telefone 075-525-2473. A cidade, neste portal, está na matéria de Quioto. Aquela matéria não é este dicionário. Não descreve o par de leões. O museu fecha às segundas. Quando a segunda é feriado nacional, abre na segunda e fecha no dia seguinte. Fecha também no fim de ano e no Ano-Novo. A página não imprime o dia em que o recesso começa nem o dia em que acaba. “Fim de ano e Ano-Novo” fica como o período nomeado, sem um calendário que esta matéria invente.
O nome coreano, e a explicação que a página recusa
Ito pede que se olhe para os cães-leão. Para cães, pergunta ele, não acham que parecem estranhos, com as caras de medo e as jubas? Parecem mais feras do que os cães que se têm em casa. Antigamente, também, as pessoas achavam esses cães-leão um tanto estranhos, e inventaram muitas explicações para a cara. Algumas diziam que era assim que os cães eram na Coreia. O nome japonês de “cão-leão”, escreve Ito, é na verdade “cão coreano”. Outras diziam que, na Antiguidade, era assim que gente do sul da ilha de Kyushu, os Hayato, se vestia e ladrava como cães para guardar o imperador.
A página apresenta as duas explicações como coisas que as pessoas pensaram. Em seguida recusa as duas como origem real. Na verdade, escreve Ito, a aparência estranha vem da influência dos predecessores: os leões que guardam os portões dos templos budistas. O nome “cão coreano” fica como explicação do nome japonês. Não fica como explicação da cara. A cara, para Ito, vem do leão. A frase da Coreia é o que as pessoas diziam ao ver o bicho, e o que o nome, por acaso, parece confirmar. Ito separa o nome da origem escultórica.
O verbete curto abre com as mesmas duas palavras inglesas, “Korean dogs”, e não discute a Coreia como teoria popular nem a recusa. Também não menciona os Hayato. A matéria de Hachiman, neste portal, registra uma revolta do povo Hayato em 720, nas regiões de Ōsumi e Hyūga, e um “diz-se” sobre a fundação de Usa para expiar a matança. É outra frase, de outro autor, sobre outro acontecimento. Ito não cita 720, não cita Usa e não cita Hachiman. Usa os Hayato como uma explicação caseira da cara do cão-leão, e recusa essa explicação. Não se cola a revolta de 720 na boca da estátua, nem se cola o ladrar do texto de Ito na fundação de Usa.
O budismo, segue Ito, começou na Índia, seguiu pela Rota da Seda até a China, depois à península coreana, e por fim cruzou o mar até o Japão no século VI. Trazer o budismo, naquele tempo, era trazer esculturas budistas. Com as esculturas dos Budas vieram as esculturas dos dois leões que ficam de guarda diante deles. Foi assim que se começou, no Japão, a tradição de colocar dois leões diante dos Budas. Nesse tempo, porém, havia só leões, e não havia cães-leão. O século VI é o da chegada, na frase. A página não imprime o ano exato nem o nome do templo da primeira leva. Imprime o caminho: Índia, Rota da Seda, China, Coreia, Japão, e os dois leões junto das imagens.
Boca aberta, boca fechada, um chifre
Ito pede que se olhe de novo as fotografias. A da esquerda é diferente da da direita. Uma tem a boca aberta. A outra tem a boca fechada. A de boca fechada tem um chifre na testa. Esse ponto, escreve ele, é muito importante. Na verdade, o cão-leão de boca aberta não é um cão-leão, mas um leão. Só o de boca fechada é de fato um cão-leão.
O par, nessa página, não é dois cães. É um leão e um cão-leão. A diferença que a página manda ver é a boca e o chifre. O chifre está na fechada. A aberta é leão. As fotografias nomeadas nesse trecho são do templo Toji: uma legenda “Lion Dog (Toji Temple)” e outra “Lion (Toji Temple)”. A página não imprime a medida das peças nem o século de cada uma na legenda. A distinção que o texto acaba de fazer é a que se aplica a esse par: um cão-leão e um leão.
O costume de emparelhar um cão-leão e um leão começou no período Heian (794–1185). Antes disso, no período Nara, os pares tinham sido sempre dois leões. A cidade que este portal lê noutro texto está na matéria de Nara. O período Nara desta página é o tempo em que o par era dois leões, não a ficha do cervo nem a do salão. Ito não descreve aquele terreiro. Descreve o que mudou no par: de dois leões para um leão e um cão-leão, a partir de Heian. Os dois leões, predecessores dos cães-leão de hoje, remontam a mais de 1200 anos. “Mais de 1200 anos” é a conta da página. Esta matéria não a converte num ano de oficina.
As fotografias seguintes são, na frase de Ito, um par muito raro de dois leões, no santuário Taiho. A página pergunta: lembra-se de qual parte falta, a que prova que são leões? A pergunta remete ao que ele já disse. O chifre está na boca fechada, e só essa é o cão-leão. A página não responde a pergunta numa legenda. Deixa o chifre como a parte que o leitor deveria lembrar. Esta matéria não inventa uma segunda marca, uma pata ou uma juba, que a página não nomeou como a prova.
O verbete curto não imprime boca aberta, boca fechada nem chifre. Não nomeia Toji nem Taiho. Não separa o período Nara do período Heian. Diz que o par é de guardiões, que veio do continente, que mais tarde ganhou significado decorativo, e que também se chama shishi-koma-inu. Shishi-koma-inu está no verbete e não está no texto de Ito. Ito fala em lion e em lion-dog. Não imprime esse terceiro nome. Quem juntar os dois textos numa placa só apaga a diferença: um tem o chifre e a data de 1995 e os períodos; o outro tem o metal, o adjetivo decorativo e o nome shishi-koma-inu.
O que estas duas páginas não chamam de a-un
Visita-se muito santuário com a explicação pronta de que a boca aberta e a boca fechada são um par de sílabas, a-un, trazido de outro vocabulário. Nem a página do museu nem o verbete Koma-inu imprimem essas sílabas. Não imprimem alfa, nem o om sagrado, nem uma frase de sutra na boca. O que Ito imprime é outra distinção: aberta é leão, fechada é cão-leão, e a fechada tem chifre. O que o verbete imprime é o par de guardiões, o continente, a madeira, a pedra, o metal e o nome alternativo. O a-un não entra por esta matéria, porque não está nas duas páginas que ela aceitou citar. Procurá-lo aqui é pedir um verbete que estas páginas não são.
O mesmo vale para o bicho de outro portão. A raposa de Inari tem matéria própria, a kitsune. Ito não a nomeia. O verbete curto não a nomeia. A raposa não é o leão do século VI nem o cão-leão de boca fechada. São animais de páginas diferentes, em funções que cada página define à sua maneira. Não se troca a juba pelo rabo para fazer um único guardião do Japão.
Também não se troca o par de pedra pelo objeto de bolso. O omamori cabe na mão e volta ao santuário quando o prazo fecha. O ofuda é o papel que fica na prateleira. Nenhum dos dois é a escultura de que Ito fala, nem o par de madeira, pedra ou metal do verbete curto. A corda de palha, na matéria sobre shimenawa, é outra marca de fronteira. Ito não descreve a palha. Descreve o guardião esculpido. Juntar corda, saquinho, papel e cão-leão numa única “sorte” apaga o que cada página separou.
O que estas duas páginas publicam é o par à porta, o nome que as duas ligam à Coreia, a recusa de Ito às explicações caseiras da cara, o caminho do leão desde a Índia no século VI, a madeira debaixo do telhado até o século XIV, a pedra do lado de fora, o metal só no verbete curto, o chifre só em Ito, o começo do par misto em Heian (794–1185), os dois leões no período Nara, os mais de 1200 anos, Toji, Taiho, o endereço do museu e o fechamento de segunda-feira. O que não publicam é o a-un, a altura da estátua e a identificação desse Hayato com a revolta de 720. A cara fica com o leão que Ito pôs na origem, e com o verbete curto que não chegou a desenhar a boca.
Fontes
- Lion-Dogs, Shiro Ito, 1995.
- Basic Terms of Shinto: Koma-inu, Kokugakuin University.
Perguntas frequentes
Komainu é um cão de guarda?
O nome, no texto de Shiro Ito, é de fato “cão coreano”. O verbete curto abre com “Korean dogs”. Ito escreve que o bicho parece fera, não o cão de casa, e que a boca aberta é um leão. Só a boca fechada, a que tem chifre, é o cão-leão. O verbete curto não imprime o chifre nem essa divisão.
Por que tanta estátua é de pedra?
Ito escreve que, nos períodos Heian e Kamakura, do fim do século VIII ao XIV, o par ficava dentro, debaixo do telhado, e era de madeira, como os edifícios e as esculturas da época. Quando passou para fora, passou a ser de pedra, para aguentar o tempo. O verbete curto diz madeira, pedra ou metal, e não conta essa mudança de lugar.
O que estas páginas dizem do a-un?
Nada. Nem o texto do museu, de 11 de fevereiro de 1995, nem o verbete Koma-inu de Basic Terms imprimem esse par de sílabas. A boca aberta e a boca fechada estão em Ito, com o chifre na fechada. O nome a-un não está. Esta matéria não o importa de outro sítio.
O Hayato deste texto é o de Hachiman?
Não. Ito conta uma explicação que as pessoas inventaram: gente de Hayato, no sul de Kyushu, vestida de cão e a ladrar para guardar o imperador. Ele recusa essa explicação como origem da cara. A matéria de Hachiman fala de uma revolta em 720, noutra frase e noutro autor. Não é a mesma história.