(Kami)

Hachiman: o culto que saiu de Usa

Hachiman em Satō Masato e em dois textos de Kadoya Atsushi: Usa, o Buda de Nara, Iwashimizu abaixo de Ise e o Ōjin de um só compilado.

Nicholas Nishimura 10 min de leitura

Pintura em sumi-e de uma pomba branca sobre um santuário, com torii vermelho e pinheiros.

A fé de Hachiman, no verbete de Satō Masato na Encyclopedia of Shinto, começou no santuário de Usa. O lugar desse santuário e de cinco outros da ilha de Kyushu mostra, na mesma página, que a fé se desenvolveu ali na antiguidade. Os cinco são o Daibu Hachiman de Chikuzen, o Chiriku Hachiman de Hizen, o Fujisaki Hachiman de Higo, o Nitta Jinja de Satsuma e o Shō Hachimangū de Ōsumi. A página chama esse conjunto de gosho betsugū. Cada nome traz a província. A página não descreve o salão, a data de fundação nem o rito de nenhum dos cinco. O que oferece é o mapa: no recorte antigo que o verbete assina, o culto é de Kyushu antes de ser da capital. Usa é o começo. Os cinco confirmam a ilha. O resto do verbete é a viagem desse culto para fora dela.

八幡

Hachiman

O kami cujo culto Satō Masato faz começar em Usa.

A ilha, o Hayato e o Buda de Nara

Em 720, escreve Satō Masato, houve uma revolta do povo Hayato nas regiões de Ōsumi e Hyūga, e muita gente Hayato foi morta na repressão. Diz-se que Usa-Hachiman foi estabelecido para expiar os pecados dessa matança. “Diz-se” é o verbo da página. A data da revolta está impressa como fato. O motivo da fundação está impresso como relato que se conta, e a página acrescenta que essa história se conta em santuários de Hachiman de várias regiões. Quem lê o verbete não recebe uma ata de fundação com o ano 720 no frontão. Recebe uma revolta datada e uma explicação que os santuários repetem.

Templos ligados a Hachiman existiam no período Hakuhō. Foram reunidos no complexo de santuário e templo, jingūji, chamado Templo de Miroku, estabelecido em 725. A página põe essa data antes da viagem à capital. Estar perto do continente, diz ela, colocou o santuário de Hachiman na frente de quem recebia influências de lá, e por isso o sincretismo de kami e Buda, shinbutsu shūgō, desenvolveu-se ali cedo. O verbete usa as duas grafias, shūgū e shūgō, no mesmo texto. Não explica a variação. Esta matéria também não escolhe uma delas.

Quando o Grande Buda do templo Tōdai-ji foi construído no período de Nara, a sacerdotisa de santuário, negini, de Usa, Ōga no Ason Morime, viajou até a capital e recebeu uma mensagem, takusen, de Hachiman, dizendo que o kami ajudaria na construção da escultura. Assim, escreve Satō Masato, o culto entrou no centro do Japão. A viagem e o oráculo aceleraram a maré do sincretismo nas regiões centrais. O salão e o Buda que a matéria do templo lê nas páginas oficiais são o canteiro que este verbete nomeia. A medida do salão, os incêndios e o preço do ingresso ficam nessa matéria. A cidade, o cervo e a hora do aeroporto ficam em Nara. Aqui cabe o que Satō Masato atribui ao kami: assistência à escultura, dita num oráculo, levada por uma sacerdotisa de Usa.

O título de 781 e o festival dos animais

Em 781 a corte imperial deu ao kami o título, shingō, de Daibosatsu, na fórmula que a página imprime por extenso: Gokoku reigen iriki jintsū daibosatsu. Imagens de Hachiman passaram a mostrá-lo como monge. Disso, escreve o verbete, vê-se que o culto tinha qualidades sincréticas particularmente fortes, se comparado a outros santuários. Há muitos exemplos de santuários de Hachiman estabelecidos, kanjō, como santuários guardiões, chinjusha, de templos como Daianji, Tōdaiji, Yakushiji e Tōji. A lista é do verbete. Não é um mapa de visita.

O festival Hōjō-e no santuário de Hachiman origina-se, na mesma página, de um rito budista de soltar animais vivos, baseado nas proibições budistas de matar. O verbete não imprime o mês do festival nem o animal. Quem procurar um calendário de peixe ou de ave neste texto não encontra. Encontra a origem que Satō Masato assina: o gesto budista de soltar o que está vivo.

No fim do período de Nara, Wake no Kiyomaro recebeu um takusen de Hachiman que frustrou o plano do monge Dōkyō de usurpar o trono. O incidente, diz a página, fortaleceu o caráter de Hachiman como kami guardião da casa imperial. O verbete não narra o diálogo do oráculo. Narra o efeito: de uma mensagem que deteve um monge, o kami ganhou o papel de guarda da casa.

O torii de um jinja continua sendo a fronteira do terreno quando o culto é de santuário. O verbete de Satō Masato não descreve o portão de Usa nem o de Iwashimizu. Descreve o caminho do culto: de Kyushu à capital, e da capital aos guerreiros. A corda que marca outro jinja está na matéria da shimenawa. Não está neste verbete. O que está é a lista de santuários guardiões e a frase de que a forma do culto, no centro, já era sincrética quando as imagens o vestiram de monge.

Iwashimizu, Ise e o clã Genji

Em 860, segundo as atividades do monge Gyōkyō, de Daianji, uma emanação de Hachiman foi trazida de Usa e estabelecida, kanjō, como o santuário Iwashimizu Hachimangū. Esse santuário tornou-se o foco do culto na capital. Chamava-se Iwashimizu Hachimangū Gokokuji e estava estruturado como sistema de templo de santuário, miyaderasei, em que monges de santuário, shasō, como kengyō ou bettō, tomavam o controle da gestão. O sincretismo avançou ali, e o Buda original, honji butsu, atribuído ao kami Hachiman foi o Buda Amida, Amitābha. A página dá o nome e o papel. Não descreve a imagem.

Mais tarde Iwashimizu entrou nos vinte e dois santuários, nijūnisha, e ficou classificado logo abaixo de Ise Jingū. O santuário de Ise que a matéria de Amaterasu lê é o termo de comparação que Satō Masato imprime. “Logo abaixo” é a posição do verbete. Não é uma fusão dos dois cultos. No fim do século XI, Hachiman e Ise foram chamados os Dois Mausoléus Imperiais, nisho sōbyō, e Hachiman atingiu o estatuto de kami ancestral imperial. Com base nesse estatuto, passou também a ser tido como kami do clã, ujigami, do clã Genji.

Minamoto no Yoshiie fez a cerimônia de maioridade, genpuku, em Iwashimizu Hachimangū e chamou-se Hachiman Tarō. O caráter de ujigami da linhagem Genji dos imperadores Sewa veio para a frente, e no fim do período Heian o santuário Tsurugaoka Hachimangū foi estabelecido, kanjō, em Kamakura. No período medieval, Hachiman passou de ujigami dos Genji a kami guardião da classe guerreira, e muitos santuários de Hachiman foram estabelecidos em propriedades, shōen, em várias regiões, como guardião tutelar dessas áreas, chinjugami. A frase fecha o verbete de Satō Masato. O medieval, nessa página, é essa passagem: do clã para a classe, e da classe para o terreno das propriedades.

Outro culto com matéria própria neste portal é o de Inari, e o santuário da montanha de Quioto está em Fushimi Inari. Satō Masato não os nomeia. Nomeia Usa, os cinco de Kyushu, os templos que receberam um Hachiman guardião, Iwashimizu e Tsurugaoka. A comparação com Ise é a única hierarquia de santuário que o verbete imprime ao lado de Hachiman.

O que os dois livros de Kadoya imprimem

O Hachiman gudōkun, também chamado Hachiman gudōki, é a obra em dois volumes que Kadoya Atsushi descreve como relato dos milagres do kami, escrito num estilo que até as crianças do tempo entendiam. Sobre a formação do par, kōhon, livro A, e otsubon, livro B, há teorias de que os dois nasceram como uma obra só e teorias de que nasceram separados. Há várias explicações sobre a data de fecho. Muitos, escreve Kadoya, consideram-nos prontos no começo do século XIV. “Muitos consideram” não é um colofão com dia e mês. Os dois livros referem-se a Iwashimizu como “este santuário”, e por isso se pensa que foram escritos pelo shasō, o monge de santuário, do templo associado a Iwashimizu Hachimangū.

O livro A enfatiza os feitos militares de Hachiman contra os inimigos da corte. Entre as histórias estão as lendas da imperatriz Jingū e do imperador Ōjin, a guerra de Bunei, a origem e a história de Hakozakigū, a guerra de Kōan, as preces pela rendição de inimigos estrangeiros feitas por Eison de Saidaiji, e a guerra de Jōkyū. O livro B assenta-se na teoria do shinbutsu shūgō e afirma que o Buda Amitabha é a fonte, honji, da manifestação terrestre, suijyaku, de Hachiman. Divide-se em catorze capítulos, com títulos tirados do pensamento sincrético, que descrevem milagres e bênçãos. Kadoya pensa que os livros podem ter sido escritos um depois do outro para dois fins complementares: uma oferta de gratidão a Hachiman como kami defensor da nação, gokokujin, depois da vitória da corte sobre o exército Yuan; e o elogio da virtude de Hachiman como Amitabha, que traz bênçãos a todos os seres. O livro A está em Gunshoruijū, Jingibu. O livro B está em Zoku gunshoruijyū, Jingibu. Os dois volumes estão em Nihon Sisō Taikei, Jisha engi, 1975, Iwanami Shoten. Essas edições são as que Kadoya imprime. O ano de 1975 é o da coleção, não o da redação medieval.

O nome Ōjin aparece, nesse verbete, dentro da lista de lendas do livro A. Não aparece como a definição do kami. A definição que iguala Hachiman Daibosatsu ao imperador Ōjin deificado está noutro texto do mesmo autor.

O compilado de 1313 e a imagem que ele escolhe

O Hachiman’usagū gotakusenshū, na página seguinte de Kadoya Atsushi, é uma obra em dezesseis volumes, compêndio da história, das lendas, dos registros e da correspondência de Usa Hachimangū desde o estabelecimento. Jin’un, o erudito-chefe de Mirokuji, passou vinte e três anos a compilar esses textos, na tentativa de recuperar documentos perdidos no tumulto das guerras Genpei, 1180–1185. Terminou em 1313. O material ia do Rikkokushi, as Seis Histórias Oficiais, a escrituras budistas, livros de histórias, lendas e tradições orais. Ao reunir o folclore diverso do norte de Kyushu, onde o culto se centrava, Jin’un tentou apresentar uma imagem única de Hachiman, centrada em Hachiman Daibosatsu, o imperador Ōjin deificado. A obra está em Shintō taikei, Jinjya-hen, Usa.

Essa frase, “o imperador Ōjin deificado”, é o foco que Kadoya atribui à compilação de Jin’un. Não é uma linha do verbete de Satō Masato. O verbete do culto conta Usa, o oráculo do Grande Buda, o título de 781, Iwashimizu, Ise, os Genji e os guerreiros, e não imprime Ōjin. Quem cola o nome do imperador na definição do culto usa o compilado de 1313, não o verbete do culto. As duas páginas são do mesmo museu digital e do mesmo projeto. Assinam autores diferentes e objetos diferentes: uma descreve a fé; a outra descreve um livro que quis unificar a fé numa imagem.

O Mirokuji de Jin’un e o Templo de Miroku de 725 estão nos dois textos com nomes próximos. Satō Masato data o jingūji em 725. Kadoya Atsushi chama Jin’un de erudito-chefe de Mirokuji no trabalho que fecha em 1313. Nenhum dos dois diz que o homem de 1313 é o fundador de 725. O intervalo está nas datas impressas. Não se encolhe.

O que a visita encontra, se seguir só estas três páginas, é um culto com endereço antigo em Usa, uma entrada na capital pelo oráculo do Buda de Nara, um título de bodhisattva em 781, um santuário na capital em 860 com Amida por honji, um lugar logo abaixo de Ise, um nome de guerra nos Genji e dois livros medievais que não contam a mesma coisa. O gudōkun reparte façanha militar e Amida. O compilado de Usa, no retrato que Kadoya faz dele, escolhe o Ōjin deificado como centro. O verbete do culto não faz essa escolha. Lê-se cada página com o nome que ela traz no fim.

Fontes

Perguntas frequentes

Onde Satō Masato faz o culto começar?

No santuário de Usa, em Kyushu, e em cinco outros santuários da mesma ilha: Daibu, Chiriku, Fujisaki, Nitta e Shō Hachimangū. A viagem da sacerdotisa Ōga no Ason Morime até a capital, no tempo do Grande Buda de Tōdai-ji, é o que a página chama de entrada do culto no centro.

Satō Masato chama Hachiman de imperador Ōjin?

Não. O verbete do culto não imprime esse nome. Quem o imprime é Kadoya Atsushi, ao descrever o compilado de Jin'un, fechado em 1313: uma imagem unificada centrada em Hachiman Daibosatsu, o imperador Ōjin deificado. É a frase desse texto, não a do verbete do culto.

Qual é o lugar de Iwashimizu em relação a Ise?

Satō Masato escreve que Iwashimizu entrou nos vinte e dois santuários e ficou logo abaixo de Ise. No fim do século XI, Hachiman e Ise foram chamados os Dois Mausoléus Imperiais, e Hachiman chegou ao estatuto de kami ancestral da casa imperial.

Quando ficaram prontos os dois livros que Kadoya descreve?

Para o Hachiman gudōkun, Kadoya diz que há várias explicações e que muitos consideram a obra pronta no começo do século XIV. Para o compilado de Usa, a data impressa é 1313, depois de vinte e três anos de trabalho de Jin'un, para repor papéis perdidos nas guerras Genpei de 1180 a 1185.