(Destinos)

Tóquio: a capital lida entre santuário, templo e rua

Tóquio para quem chega a pé: Meiji Jingū, Sensō-ji, a floresta no meio da cidade e o que santuário e templo pedem na visita.

Nicholas Nishimura 10 min de leitura

Pintura em sumi-e da Tokyo Tower vermelha no meio do skyline de Tóquio, sob um céu de tinta.

Tóquio é a capital, e a Japan National Tourism Organization a situa na baía de Tóquio, na região de Kantō, na ilha de Honshū. Os aeroportos que a JNTO nomeia são Haneda, o Aeroporto Internacional de Tóquio, e Narita. A frase seguinte, nas páginas de turismo, costuma ser um superlativo: a maior, a mais, a que tem mais estrelas. Este texto deixa esses rankings de lado. Eles mudam de critério e de ano. O que não muda no chão é a diferença entre um santuário, um templo e a rua que os empurra.

東京

Tōkyō

A capital do lado leste. O nome não diz o que a visita vai encontrar em cada bairro.

A JNTO reparte a cidade em temperamentos, não em troféus. Harajuku e Shibuya como moda e juventude. Ginza como vitrine. Shinjuku como distrito de negócios, torres e ruelas de bar. Asakusa como o centro antigo, com templo e lojas. Akihabara como eletrônicos, jogos e anime. O tempo também vem em traço largo, sem números de graus: primavera amena, verão quente e úmido com tufões, outono fresco, inverno frio e seco, neve rara. No começo do ano, a mesma página aponta Sensō-ji e Meiji Jingū entre os lugares cheios na peregrinação de Ano-Novo. Este texto fica com esses dois, porque os dois ensinam a ler o resto.

A floresta que alguém plantou

Meiji Jingū fica em Shibuya, no endereço 1-1 Yoyogi Kamizono-chō. O santuário descreve a floresta em volta dos edifícios como sagrada e, ao contrário do que o verde sugere, plantada. Cento e dez mil voluntários a plantaram em honra do imperador Meiji (1852–1912) e da imperatriz Shōken (1849–1914). São 70 hectares e, hoje, 234 variedades, doadas de todo o país. Cada árvore foi escolhida pela aparência que teria em cem ou duzentos anos, e mesmo assim o conjunto devia parecer natural já em 1920, ano do plantio. O projeto foi de Honda Seiroku (1866–1952), também responsável pelo parque de Hibiya. Desde então, diz o santuário, não houve intervenção: nada se acrescenta, nada se tira, a árvore que cai fica para voltar ao solo. A floresta separa o sagrado do profano. É também, na frase do lugar, um dos oásis verdes mais procurados da cidade.

A etiqueta publicada pede que a pessoa não saia da trilha, não leve planta, flor, galho ou noz, não corra, não faça esporte, não voe drone e não fotografe nem filme o santuário principal, onde as pessoas rezam. Comer, beber e fumar ficam nas áreas indicadas. A floresta não é parque de piquenique com torii na entrada. O torii aqui tem estilo e medida publicados pelo próprio mapa.

O primeiro portão do acesso sul é myōjin: lintel superior curvo, viga longa, três crisântemos de dezesseis pétalas, o brasão da família imperial. É o primeiro de três nesse caminho. Gente inclina a cabeça ao passar, na entrada e na saída. O grande torii, o ōtorii, está no encontro dos acessos norte e sul. O santuário o descreve como o maior torii de madeira nesse estilo no Japão: 12 metros de altura, 17,1 de largura, pilares de 1,2 metro de diâmetro que juntos pesam 13 toneladas. O original, de 1920, saiu de um cipreste de 1.200 anos em Alishan, em Taiwan, e um raio o destruiu em 1966. O atual, de um cipreste de 1.500 anos também de Taiwan, foi concluído em 23 de dezembro de 1975. Um comerciante de madeira de Tóquio teria procurado a árvore para cumprir um voto, depois que o raio levou o portão e ele atribuiu ao kami a proteção do negócio. O número impressiona. A história do voto importa mais: o portão é oferta, como os portões de outras montanhas, não um monumento solto.

O salão, a corda e a tabuinha

O honden é o edifício mais sagrado. O interior guarda os kami. Há oferta de alimento e preces, o onikkusai, às 8 da manhã e às 14 horas. A madeira é cipreste japonês, em grande parte de Kiso, em Nagano. O estilo é nagare-zukuri: o telhado da frente desce mais longe, para cobrir a escada. O visitante reza no gehaiden, o salão externo. O prédio de 1920 queimou nos bombardeios do fim da guerra. O atual foi concluído em 1958. Os telhados novos são de cobre, não da casca de árvore original, por causa do fogo.

O portão Minami Shinmon, de 1920, sobreviveu aos ataques. É de hinoki, com telhado de cobre, e tem o desenho inome, que o santuário liga à proteção contra incêndio. Passa-se por cima da viga, não em cima dela, e com a cabeça inclinada. Ao lado, no mapa, estão o temizuya, a fonte em que se lavam as mãos e a boca, e o juyosho, o escritório de amuletos. Ali se recebem omamori e ofuda. O santuário cita proteção no trânsito, saúde, estudos, e o sowa mamori, um omamori de afeto com aroma de cânfora, inspirado nos dois cânforas Meoto Kusu. O saquinho não se abre. Guarda-se até cumprir o prazo do pedido.

Esses dois cânforas foram plantados em 1920 e crescem lado a lado. Uma shimenawa os une. O santuário lê a corda como marca de sagrado e de afastamento do mal, e lê as árvores como imagem do casamento de Meiji e Shōken. Gente que procura parceiro para ali. A corda, neste caso, não está na entrada do recinto. Está entre dois troncos, e mesmo assim faz o serviço de fronteira.

O ema-kake contorna um cânfora. O ema do lugar custa, segundo o mapa do santuário, 500 ienes. De um lado, o brasão, ou no Ano-Novo o animal do zodíaco daquele ano. Do outro, o espaço em branco. O santuário traduz a palavra como “desenho de cavalo” e lembra que, antigamente, oferecia-se o animal. A mensagem pode ser voto, agradecimento ou desejo do ano, em qualquer língua, por qualquer pessoa, tenha a fé que tiver. Pendura-se na grade. Os sacerdotes oferecem as tabuinhas ao kami no mikesai de toda manhã. Depois, um fogo ritual as queima. Escrever e levar para casa quebra o gesto.

A Jinja Honchō descreve a reverência geral de um jinja: moeda se quiser, sino se houver, duas reverências, duas palmas, uma prece baixa, uma reverência. Não se entra no salão sem convite. Não se fica plantado na frente de quem reza. Meiji Jingū acrescenta a regra da câmera no santuário principal. A cidade barulhenta fica do outro lado da floresta. O silêncio daqui é regra publicada, não clima acidental.

Asakusa e a estátua que não se mostra

Sensō-ji, ou Kinryūzan Sensō-ji, está em 2-3-1 Asakusa, Taitō. O templo se apresenta como o mais antigo de Tóquio e como casa de Kannon, Avalokiteśvara, Shō Kanzeon Bosatsu. Afirma que recebe 30 milhões de fiéis por ano. O número é o do templo. A JNTO descreve a chegada: uns cinco minutos a pé da estação de Asakusa, servida pelas linhas Ginza, Asakusa, Tōbu e Tsukuba Express. O portão Kaminarimon, a lanterna vermelha, a rua Nakamise e o pagode de cinco andares são o cartão. O salão é outra coisa.

A história que o templo publica começa cedo, em 18 de março de 628, com a capital ainda em Asuka, na região de Nara. Os irmãos Hinokuma Hamanari e Takenari pescavam no Sumida e recolheram uma estátua na rede. Haji no Nakatomo, chefe da aldeia que viria a ser Asakusa, reconheceu Kannon, fez da casa um templo e passou o resto da vida em culto. Em 645 o monge Shōkai ergueu um salão e, por um sonho, escondeu a estátua. Desde então ela não é mostrada. É um hibutsu, imagem secreta, guardada num zushi com fechaduras que nem os sacerdotes-chefes abrem, diz o templo. No século IX, Ennin (794–864), do Enryaku-ji, esculpiu uma estátua igual para que algo pudesse, raramente, ser visto. É essa imagem revelada que o visitante não vê por trás da cortina, e mesmo assim é diante dela que se reza.

O gesto que o templo pede no salão principal não é o do santuário. Mãos juntas, à maneira budista, e a frase Namu Kanzeon Bosatsu. Não há duas palmas. Confundir os dois rituais é tratar Asakusa e Harajuku como o mesmo cenário com telhado diferente.

O salão principal foi construído por Tokugawa Iemitsu, terceiro xogum, e era tesouro nacional. O ataque aéreo de 10 de março de 1945 o destruiu. A reconstrução, com doações de todo o país, é de 1958. O pagode de cinco andares, erguido primeiro em 942 por Taira no Kinmasa, também queimou nesse ataque e foi refeito em 1973. O Kaminarimon, igualmente de 942 na origem, queimou num incêndio de dezembro de 1865 e foi reerguido em 1960 com doação de Konosuke Matsushita. Fujin e Raijin, vento e trovão, guardam o portão. O Hōzōmon atual é de 1964. A Nakamise é descrita pelo templo como uma das ruas de comércio mais antigas do Japão: brinquedos, doces, lembranças. Comprar ali não é o culto. É a rua que cresceu na frente dele.

Em 1590, Tokugawa Ieyasu designou Sensō-ji como templo das preces do xogunato. No período Edo a devoção a Kannon se espalhou entre a gente comum, e Asakusa virou centro de teatro, depois de cinema e de variedades. O templo conta essa sequência sem pedir que o visitante escolha entre fé e barraca. Os dois estão no mesmo endereço há tempo suficiente para a barraca não ser um acidente.

O Setsubun do lugar merece uma frase própria, porque diverge do grito mais conhecido da festa. O templo diz que, como não há demônios perto de Kannon, não se fala “fora, demônios”. Fala-se vida longa e boa fortuna. A data que ele publica é por volta de 3 de fevereiro. A soja ainda sai. A frase muda porque o dono do terreiro é outro.

O que a cidade repete fora desses dois

Entre a floresta de Yoyogi e o rio de Asakusa há dezenas de jinja pequenos que não cabem num dia. Muitos são de Inari, no fundo de um comércio ou na esquina de um bairro, com duas raposas e uma casa em miniatura. A etiqueta não encolhe com o tamanho. O terreno é de alguém. A foto se faz de fora.

O maneki-neko tem, em Setagaya, o templo que a lenda do gato usa de endereço. Vale a visita por isso, não porque Tóquio seja a cidade do gato da sorte. O gato de loja em Harajuku e o gato de louça no Gōtokuji não são o mesmo objeto. A cidade deixa os dois à venda e à vista.

Comer entra na leitura do destino sem virar guia de restaurante. O onigiri é a refeição que a estação e a loja de esquina já resolveram: arroz na mão, para o intervalo entre um bairro e outro. Não substitui a cozinha da cidade. Impede a frase de que só se come em Tóquio o que tem fila anunciada.

O onsen de fonte termal não é o modo padrão de tomar banho num hotel de Shinjuku. A JNTO lembra que há banhos de uso diário em muitas cidades e que vilas como Hakone, em Kanagawa, ficam ao alcance de quem usa Tóquio como base. A regra da água é a da casa que recebe, não a da capital.

Quem chega com uma lista de “imperdíveis” vai cumprir a lista e sair sem saber se rezou num jinja ou num tera. Meiji Jingū publica floresta, torii, corda, amuleto e tabuinha. Sensō-ji publica estátua escondida, frase de Kannon e um Setsubun sem demônio. Os bairros em volta vendem o que os dois não são. A capital fica legível nesse intervalo.

Fontes

Perguntas frequentes

Meiji Jingū é um templo?

É um santuário xintoísta. O lugar o descreve como dedicado às almas do imperador Meiji e da imperatriz Shōken. O salão principal foi concluído em 1920, destruído nos bombardeios do fim da Segunda Guerra e reconstruído em 1958.

Sensō-ji é o templo mais antigo de Tóquio?

É o que o próprio Sensō-ji afirma. A história que o templo publica começa em 18 de março de 628, com uma estátua de Kannon recolhida no rio Sumida, e segue com o salão erguido em 645 pelo monge Shōkai.

Dá para visitar os dois no mesmo dia?

Ficam em pontas diferentes da cidade. Meiji Jingū está em Shibuya, junto de Harajuku. Sensō-ji está em Asakusa, a cerca de cinco minutos a pé da estação, segundo a JNTO. O mesmo dia cabe se a pessoa aceitar o deslocamento e não tratar os dois como o mesmo tipo de lugar.

Precisa saber rezar para entrar?

Não. Os dois lugares publicam um modo de visita. No santuário, a Jinja Honchō descreve a reverência de fora do salão. No Sensō-ji, o templo pede as mãos juntas e a frase Namu Kanzeon Bosatsu diante do salão principal. Os gestos não se copiam um no outro.