(Festivais)

Matsuri: o que a palavra cobre

Matsuri na introdução de Okada Shōji, no glossário curto da Kokugakuin e no Gion que Mogi Sakae descreve de 1 a 29 de julho.

Nicholas Nishimura 11 min de leitura

Pintura em sumi-e de um mikoshi carregado entre lanternas, barracas e um torii.

Matsuri, na introdução do capítulo de ritos e festivais da Encyclopedia of Shinto, é a palavra que cobre cerimônias rituais e festivais do xintoísmo. Okada Shōji assina essa introdução. O glossário curto da mesma universidade, Basic Terms of Shinto, dá outra frase, mais breve, para a mesma palavra. Mogi Sakae, num verbete à parte, descreve um festival inteiro, o Gion de Quioto, dia por dia entre 1 e 29 de julho. Três páginas. Uma é a palavra. Outra é o glossário. A terceira é um festival com data. Esta matéria não faz de um dos três o resumo dos outros.

祭

Matsuri

Culto, festival. A introdução faz a palavra vir do verbo matsurau. O glossário curto acrescenta o banquete e a rua.

A palavra, e a refeição no centro do rito

A etimologia de matsuri, escreve Okada Shōji, tem sido interpretada como vinda do verbo matsurau, que significa ceder, servir ou submeter-se ao poder de um kami. Por assim dizer, os kami aumentam a força do espírito e os humanos desfrutam o poder dos kami por meio dos ritos visíveis do matsuri. Um dos constituintes importantes dos ritos de culto é a apresentação de ofertas de comida, shinsen. O rito central do Daijōsai imperial, o primeiro festival de prova dos primeiros frutos depois da entronização, é a refeição ritual comunitária partilhada por humano e kami. O rito das “grandes ofertas de comida”, ōmike, é igualmente a observância cerimonial central nos Grandes Santuários de Ise. O papel dessa refeição ritual partilhada, ou das refeições rituais de comunhão, naorai, está sublinhado, na mesma página, pela solenidade com que se realizam nos ritos da casa imperial e de Ise.

O gosto japonês pelo matsuri é, na frase dele, bem conhecido. O sentido das estações exprime-se pelos festivais de cada uma das quatro. Do festival de Ano-Novo, saitansai, em 1 de janeiro, ao festival de “ver o ano sair”, toshikoshi, em 31 de dezembro, o ciclo anual está marcado por um número prolífico de costumes rituais. Os japoneses participam nos festivais vivos da cidade e nos festivais de ação de graças da colheita da aldeia, transmitidos desde a antiguidade, entrando sob o poder misterioso dos kami e reafirmando o espírito comunitário. O matsuri também funcionou como uma espécie de norma social. É, escreve Okada, um rito importante para compreender o xintoísmo e o culto do santuário.

O capítulo que essa introdução abre divide-se nas seções que ele nomeia: tipos de ritos, ritos de Estado, ritos do santuário de Ise, ritos de santuário, observâncias particulares de santuário, artes performativas, ritos da vida cotidiana, e ritos em Okinawa e Amami. A característica dos matsuri antigos, escreve ele, vai sendo descoberta pela pesquisa arqueológica. Em particular, os sítios rituais das ilhas de Munakata e Okinoshima produziram resultados valiosos para compreender a evolução da observância ritual do século V ao século IX. O conteúdo dos ritos pode inferir-se dos achados, graças ao aumento das escavações, e a página deposita esperança no progresso da pesquisa. Comparações com festivais de outras partes do mundo, escreve ele, também continuam.

Embora o culto ritual xintoísta se fundasse na sociedade agrícola, a organização sistemática avançou de mãos dadas com a formação e o desenvolvimento do Estado antigo. O sistema ritual do Estado ritsuryō, governo baseado em modelos chineses de códigos penais e civis, completou-se nos reinados dos imperadores Tenmu e Jitō, por volta do fim do século VII. O sistema ritual ritsuryō e os ritos que se lhe acrescentaram no período Heian, 794–1192, passaram por um declínio nos períodos medieval e moderno inicial, mas foram revividos no período Meiji e continuaram no ritual xintoísta moderno. O que se desejava nessa restauração eram os ritos ritsuryō antigos e os ritos do período Heian tal como os tratados rituais existentes os descrevem. A página separa, para os ritos de Estado, a descrição pré-moderna, nos artigos de ritual da corte, e a moderna, nos artigos de ritual de Estado Meiji. Separa também o ritual ritsuryō antigo do ritual da casa imperial na era Meiji.

Os ritos de Ise, escreve Okada, têm ligações profundas com a casa imperial desde a antiguidade e conservam um caráter fortemente oficial. A remoção regular do santuário, shikinen sengū, que se faz a cada vinte anos, os rituais anuais Kannamesai e Tsukinamisai, e os rituais diários únicos de ofertas de comida de manhã e de tarde estão entre as observâncias que o capítulo reserva à seção dos santuários. A seção de ritos de santuário discute termos da prática atual. A seção de observâncias particulares apresenta um panorama de ritos do país, transmitidos e enraizados na história e na origem de um santuário dado. Esses ritos locais oferecem, na frase dele, evidência de características regionais, e em alguns casos contam a fundação do santuário em forma ritual.

A cultura tradicional, continua a página, está sendo condensada em performances e ofertas de comida. A importância disso tem aumentado, e a questão embrulha-se com quem vai continuar as tradições do matsuri. O debate sobre como preservar o matsuri, escreve Okada, parece certo de crescer. “Parece certo” não é um decreto.

A seção da vida cotidiana vai da primeira visita de um recém-nascido ao santuário, hatsumiya mōde, aos funerais xintoístas, shinsōsai, e aos ritos vocacionais do ano, como a primeira peregrinação do ano novo, hatsumōde. A seção final trata de ritos em Okinawa e Amami. Não caem diretamente na província do matsuri xintoísta, escreve a página, mas a área atraiu cedo folkloristas como Yanigita Kunio e Orikuchi Shinobu, e é instrutiva para compreender formas primeiras e a essência do culto e dos ritos xintoístas. A página imprime o nome Yanigita Kunio.

O glossário curto: o rito, o naorai e a estação

No Basic Terms of Shinto, matsuri é culto e festival. Uma ocasião de oferecer preces, ação de graças, relatórios e louvor a uma deidade ou a deidades. Um matsuri começa em geral com ritos solenes, seguidos por celebrações alegres da comunidade. Os ritos centram-se na apresentação de shinsen, ofertas de comida, na recitação de norito, na música e no culto, e são seguidos por um banquete de comunhão chamado naorai. As celebrações alegres podem incluir uma procissão com a deidade, dança, performances dramáticas, luta de sumo e banquete.

Os matsuri estão estreitamente ligados ao ciclo das estações agrícolas. Os lavradores começam o cultivo no início da primavera rezando por colheitas fartas, e no outono oferecem ação de graças por uma colheita farta e apresentam os frutos da colheita aos deuses. A palavra matsurigoto é uma palavra antiga usada para referir tanto o governo como o culto, refletindo a atitude de que os humanos devem seguir a vontade dos deuses na vida política. Essa ideia exprime-se no termo saisei itchi, unidade de culto e de governo. Saishi é a palavra sino-japonesa para matsuri. Saigi significa as cerimônias realizadas durante o matsuri. Saiten abrange o matsuri inteiro, tanto as cerimônias como a celebração da comunidade.

A entrada matsurigoto, na mesma página, só remete para matsuri. O que há sobre a palavra que junta governo e culto é o parágrafo acima.

O mikoshi, na mesma página, traduz-se muitas vezes como santuário portátil, mas é na verdade um palanquim divino. Um veículo antigo, usado para transportar uma deidade quando ela se move entre o santuário principal e um santuário temporário durante um festival, quando faz uma volta pela paróquia, ou quando muda para um santuário novo. Num festival típico, o mikoshi principal de um santuário é carregado por um grupo entusiasta de paroquianos, ujiko, e pode ser acompanhado por uma procissão de sacerdotes e por multidões vestidas com trajes antigos. Mikoshi menores podem ser carregados por crianças ou por outros paroquianos, em procissões separadas.

O glossário não descreve o Gion. Não nomeia julho. A procissão que ele imprime é a definição do palanquim, não o mapa de uma cidade. O torii por onde essa procissão passa, quando passa, é o portão do santuário, com a regra que a matéria do portão já escreveu. A shimenawa que fecha um trecho do recinto nesse dia não afrouxa porque há festa. O ema, se o santuário o oferecer no mesmo terreiro, continua a ser a tabuinha do pedido, não um adereço do carro.

Um festival com dias, e a família que ele nomeia

O Gion matsuri, no verbete de Mogi Sakae, realiza-se entre 1 e 29 de julho no santuário Yasaka, no bairro de Higashiyama, cidade de Quioto. Na antiguidade chamava-se Gion’e, a assembleia dos espíritos de Gion, na forma que a página imprime: Gionryō-e. A origem do festival diz-se estar na assembleia dos espíritos realizada pelo imperador Seiwa para obter proteção contra uma epidemia, no décimo primeiro ano da era Jōgan, 869, do período Heian. “Diz-se” é o verbo da origem. O ano 869 está impresso. Com harae, carros dashi, carros de alabarda, hoko, e danças furyū de figurinos elegantes, o festival de Gion tornou-se o modelo da estrutura básica dos festivais de verão japoneses. A página pensa que influenciou a maior parte dos festivais de Gion e de Tennō, em que palanquins sagrados, shin’yo, são levados à beira-mar ou à margem do rio, ou em que carros dashi e de alabarda são puxados pelas ruas, realizados em junho e em meados de julho pelo país.

O festival começa em 1 de julho com o kitsubuiri, a reunião em que se decidem os ritos que compõem a festa, e conclui em 29 de julho com um rito de relatório aos kami, hōkokusai. Em 2 de julho a ordem dos carros no cortejo determina-se por sorteio, mikuji. Em 9 de julho os carros são montados. No dia 10, os shin’yo são levados por sacerdotes à ponte Shijō para serem lavados e purificados com água do rio Kamo, usando ramos sagrados de sakaki. Um cortejo de gueixas de Gion, com nerimono, outro tipo de carro, e lanternas chōchin, recebe os shin’yo. No dia 11, o chigoshasan é um rito em que meninos escolhidos para ir nos carros de alabarda nesse ano vestem cocares altos de corte e robes suikan e são levados a cavalo ao santuário, para prestar reverência e receber a quinta patente da corte. Os dashi são montados para exibição no dia 13 e puxados pelo bairro no dia 14. Artes performativas apresentam-se em 15 de julho. No yoiyama, um pequeno festival na noite anterior ao evento principal, 16 de julho, os carros decoram-se com lanternas chōchin, figuras humanas e outros ornamentos.

O desfile de dashi e hokodashi em 17 de julho é a parte mais viva do festival. No total, vinte e nove carros, vinte e dois carros de montanha e sete carros de alabarda, fazem uma volta pelo bairro. Performances de sagimai, a dança da garça, também chamada sagiodori, e danças dengaku acontecem em vários lugares no mesmo dia. Uma procissão sagrada, shinkō, centrada em três shin’yo, deixa o santuário principal à tarde. Em 24 de julho os palanquins voltam do sítio temporário de consagração, otabisho, ao santuário. Em 28 de julho são lavados de novo na ponte Shijō. Segue-se, em 29 de julho, a oferta ritual de um relatório final aos kami.

A página nomeia outros Gion, cada um com datas próprias: Yamagasa em Hakata, de 1 a 14 de julho; Yasaka em Sawara e o taiko de Kokura, de 10 a 12; Yakumo em Matsusaka, de 14 a 16; Hōran’enya em Gōtsu, de 14 a 15; Tajima, de 19 a 21; Daija em Ōmuta, em 13 e 14. A lista é do verbete. Não é um convite a tratar o dia 17 de Quioto como o dia de Hakata. A cidade de Quioto, neste portal, já tem a festa de julho na matéria dela. O calendário dia a dia fica aqui, porque é o verbete de Mogi Sakae que o imprime.

O que esta visão geral não substitui

O Setsubun tem matéria própria. O glossário desta página não descreve o feijão. A introdução não descreve a máscara. Quem vier a esta visão geral à procura da noite em que se expulsa o demônio encontra o ciclo de 1 de janeiro a 31 de dezembro, não o rito dessa véspera. O Tanabata também tem matéria própria. Okada Shōji não nomeia o sétimo dia do sétimo mês. Mogi Sakae não nomeia o bambu. A sétima noite fica na matéria dela. Esta fica com a palavra, com o banquete e com um julho que a enciclopédia descreveu por inteiro.

O santuário de Meiji, em Tóquio, não é o Yasaka. A introdução fala de santuário em geral e de Ise em particular. Não transfere o shikinen sengū de vinte anos para a floresta de Yoyogi, nem o desfile de 17 de julho para Shibuya. Cada casa publica o seu dia. O que as três páginas daqui permitem dizer, sem colar uma na outra, é o seguinte. A palavra, em Okada, vem de servir o kami, e a refeição ritual está no centro, em Ise e na entronização. O glossário põe o rito solene antes da rua, liga a primavera e o outono à lavoura, e define o palanquim. O Gion é um verão com origem dita em 869, vinte e nove carros no dia 17, e uma família de festivais que a página lista com outras datas. Três recortes. Nenhum deles é o calendário inteiro do país.

Fontes

Perguntas frequentes

De que verbo a introdução faz a palavra vir?

Okada Shōji escreve que a etimologia de matsuri tem sido interpretada a partir do verbo matsurau: ceder, servir ou submeter-se ao poder de um kami. Pelo rito visível, o kami aumenta a força do espírito e os humanos desfrutam o poder do kami.

O que acontece antes da festa da rua?

No glossário curto, um matsuri começa em geral por ritos solenes e segue para a celebração da comunidade. Os ritos centram-se na oferta de shinsen, na recitação de norito, na música e no culto, e são seguidos pelo banquete de comunhão chamado naorai.

O que é o mikoshi, nessa mesma página?

Um palanquim divino, muitas vezes traduzido como santuário portátil. Serve para transportar uma deidade entre o santuário principal e um santuário temporário, numa volta pela paróquia, ou na mudança para um santuário novo.

O Gion é o modelo de todo matsuri?

Mogi Sakae escreve que o Gion, com harae, carros dashi, carros de alabarda e danças, se tornou o modelo da estrutura básica dos festivais de verão japoneses. A frase é sobre essa família de festivais. Não apaga o calendário agrícola que o glossário põe na primavera e no outono.