(Kami)

Raijin e Fujin: trovão e vento em verbetes separados

Raijin no verbete de Suzuki Kentarō, e o vento em Shinatsuhiko, Kazenokami e no Fūjin sai: o que cada página imprime, sem fundir a estátua.

Nicholas Nishimura 10 min de leitura

Pintura em sumi-e de Raijin com um aro de tambores e de Fujin com um saco de vento.

Raijin, no verbete de Suzuki Kentarō na Encyclopedia of Shinto, é o kami do trovão. Fujin, como nome solto de estátua ao lado, não é o título de nenhum dos textos que esta matéria lê. O vento está noutros três verbetes da mesma enciclopédia. Nakayama Kaoru assina Shinatsuhiko, kami dos textos clássicos. Suzuki assina também Kazenokami, o kami do vento na religião popular, e nessa página imprime fūjin como outro nome. Namiki Kazuko assina o Fūjin sai, o festival dos kami do vento, rito antigo e medieval da corte. Quatro páginas. Um trovão. Um vento que a enciclopédia não entrega numa figura só.

雷神・風神

Raijin, Fūjin

O trovão tem verbete próprio. O vento está em três páginas, e só uma delas imprime a palavra fūjin.

O trovão que o verbete chama de kami

O título inglês é Raijin. A primeira frase define: “Thunder kami”, kami do trovão. Na Antiguidade, escreve Suzuki, trovão e relâmpago eram tidos como expressões atmosféricas do comportamento violento de um kami do trovão. A frase seguinte diz que o raio que atinge a terra era interpretado como a manifestação temporal desse kami. Nessa cláusula, a página inglesa imprime a grafia lightening. O resto do verbete fala de trovão, de chuva e da queda. Esta matéria não transforma o erro de grafia num segundo fenômeno.

O termo para trovão, kaminari, pode ser lido como kami “soando”, nari. As quedas de raio, continua a página, às vezes se chamam kandachi, palavra que significa “kami de pé”. São as duas leituras que o verbete oferece.

Para os agricultores, o raijin era visto como tutelado da agricultura, ligado ao aparecimento da chuva. A relação próxima entre o cultivo e o raijin, escreve Suzuki, também se vê no fato de os termos para relâmpago, inazuma e inabikari, incluírem o elemento ina, palavra que se refere aos colmos do arroz.

Outras provas do caráter de kami da lavoura e da água, na mesma página, são três crenças e um gesto. Acreditava-se que o raio fertilizava o arrozal. Acreditava-se que uma colheita farta ficava assegurada se bambu recém-cortado e cordas de tabu, shimenawa, fossem erguidos no lugar de uma queda de raio num campo de cultivo. E praticavam-se invocações de chuva, amagoi, em santuários dedicados ao raijin. A corda, neste portal, tem matéria própria: o que é shimenawa. A página não imprime o mês nem o nome de um santuário.

Ao mesmo tempo, o raijin possuía características de kami violento de desastre, com poder aterrador. Água que a lavoura quer e desastre que a lavoura teme estão no mesmo verbete.

O exorcismo do transplante, e a maldição de Quioto

Em algumas regiões, o som do trovão durante a época de transplante do arroz levava à execução de um kandachioi. O verbete descreve o rito: bater bambu rachado, ou fixar lâminas de foice na extremidade de bambus, como exorcismo simbólico do raijin. Não é o bambu com a corda no lugar da queda, que assegurava a colheita. A foice simbólica dos cultos do vento está noutro verbete.

Muitas regiões, segue Suzuki, fazem também conjuros especiais para se proteger de desastres do raio. A página não descreve a fórmula.

A natureza do raijin como kami de calamidade pode ser verificada, escreve ele, em passagens esparsas do Kojiki que descrevem a ida de Izanagi ao mundo dos mortos, Yomotsukuni. O par e essa descida estão na matéria de Izanagi e Izanami. O verbete limita o peso delas: a fonte histórica mais importante para a ênfase nesse caráter foi a associação, no período Heian, do raijin com o culto dos goryō, espíritos vingativos dos mortos.

Com o acréscimo das crenças sobre goryō, o culto simples do raijin entre os moradores de Quioto evoluiu para a crença de que as quedas de raio representavam a manifestação da maldição do goryō. A cidade, neste portal, está na matéria de Quioto. “Evoluiu” é o verbo da página. O ano da primeira maldição não está no texto.

Quando essa crença se associou ao espírito vingativo do cortesão acusado injustamente, Sugawara no Michizane, resultou no surgimento de um culto ao kami Karai Tenjin. A página glosa o nome entre aspas: “fire-and-thunder-heavenly-kami”, kami celestial de fogo e trovão. E o raijin passou a ser amplamente cultuado como uma figura dentro do culto dos “heavenly kami”, tenjin, que a página glosa como kami celestiais. O processo, o exílio e o ano não estão neste texto.

A forma antiga e a forma com tambores

Textos antigos associam a aparência do raijin a serpentes ou a uma criança pequena. A partir de cerca do período Kamakura, pinturas e esculturas do raijin passaram a retratar uma forma demoníaca, segurando um chicote e cercada por um anel de tambores ligados. “Cerca de” é o limite de data que a página dá. Não é um ano de oficina, nem um número de tambores.

O verbete não descreve um saco de vento nem um par esculpido. Não nomeia o Sensō-ji. A matéria desse templo, neste portal, diz que Fujin e Raijin foram colocados no portão para guardar o recinto de desastres naturais. Essa frase é da matéria do Sensō-ji. Não é de Suzuki.

Shinatsuhiko, nascido do sopro

O vento, na página de Nakayama Kaoru, começa com um nome do Kojiki: Shinatsuhiko no kami. Outro nome, impresso como escrita alternativa do Nihongi: Shinatobe no mikoto. Segundo uma “escrita alternativa” transmitida pelo Nihongi, Shinatsuhiko foi um kami produzido no tempo em que Izanagi e Izanami davam à luz a terra, o kuniumi. Enquanto produzia a terra do Japão, Izanagi usou o sopro para dissipar a névoa que cobria o país, e com isso deu à luz Shinatsuhiko. Não é a viagem a Yomotsukuni, que o verbete do trovão cita para outro fim.

O nome é interpretado de modos vários, escreve Nakayama, como “homem de sopro longo” e como “homem do lugar onde o vento surge”. O Kojiki e o Nihongi, os dois, veem-no como kami do vento. A página não escolhe uma leitura e não apaga a outra.

Segundo o Nihongi, Shinatsuhiko era um nome alternativo de Shinatobe, um kami feminino, quando tobe é considerado uma variante do feminino tome. Nessa condição, o nome é de um kami feminino.

O norito do Engishiki para o festival do kami do vento de Tatsuta, segue a página, sugere que os dois nomes se referiam de origem a um único par de kami, masculino e feminino. “Sugere” é o verbo. Os meses e o cargo de quem executa o rito estão na página de Namiki, não nesta.

O kami do vento na lavoura, no mar e na foice

Kazenokami, ainda de Suzuki Kentarō, abre com kaze no kami, “kami do vento”, também conhecido como fūjin. É a frase em que este nome entra. Não traz o chicote nem os tambores do outro verbete. A posição geográfica do Japão, escreve ele, numa área exposta a ventos sazonais fortes, torna o vento um fator importante na vida cotidiana, na lavoura e nas atividades marítimas. Por isso o Japão foi, desde a Antiguidade, lugar de crenças em tutelados do vento. Outra crença comum era a de que um “vento divino”, shinpū, acompanhava a ida e a vinda dos kami.

O Kojiki, o Nihongi e o Engishiki listam, como kami do vento, os nomes Amenomihashira no kami, Kuninomihashira no kami, Shinatsuhiko no mikoto e Shinatobe no mikoto. Na frase seguinte, os objetos principais de culto, saijin, do santuário Tatsuta Jinja, na região de Yamato, são Amenohashira no kami e Kuninomihashira no kami. A lista imprime Amenomihashira. A frase do santuário imprime Amenohashira. As duas grafias ficam como a página as imprimiu.

O Tatsuta Jinja, segue Suzuki, é conhecido pelo Fūjinsai, o “festival do kami do vento”, e há muito é o centro de um culto dedicado a ritos de proteção contra o dano do vento. Entre os santuários que consagram Shinatobe no mikoto e Shinatsuhiko no mikoto está o Kazahinomi no miya, santuário destacado, betsugū, dos grandes santuários de Ise. Uma lenda relaciona a esse lugar o “vento divino” que soprou por ocasião das invasões mongóis do século XIII. “Lenda relaciona” é o verbo. A página não imprime o ano da batalha.

O santuário Anashinimasu Hyōzu Jinja, em Nara, e outros santuários Anashi no país, diz-se que consagram um kami da forja, kajishin, pensado em relação com as palavras anaji e anaze, termos locais para ventos de tempestade sazonais que vêm do noroeste. A cidade e o período que este portal trata noutro lugar estão na matéria de Nara. O culto, pensa a página, teria sido de origem um culto contra ventos danosos. “Diz-se” fica.

Cultos locais, em muitas áreas, usam foices simbólicas como instrumentos mágicos para assegurar proteção contra o vento. Não é a foice do kandachioi, no verbete do trovão.

Além dos ritos de santuário para subjugar ventos e assegurar colheitas fartas, as observâncias dirigidas ao kami do vento incluíam invocações mágicas, a observância do Kaze matsuri, o festival do vento, vigílias de noite inteira ao vento, kaze himachi, e a execução de danças de leão tradicionais. A palavra matsuri, como visão geral de festa, está na matéria de matsuri. O Kaze matsuri desta página é uma observância nomeada. A visão geral não descreve a vigília.

A maior parte desses ritos, escreve Suzuki, observava-se em torno do “210.º dia”, contado a partir do primeiro dia do ano novo lunissolar antigo, ou risshun, o dia que se acreditava sinalizar o começo da estação dos tufões. Tufões que chegavam por essa altura eram, de fato, causa de grande dano às colheitas. A página não imprime a data solar correspondente.

Muitos lugares observavam também “exorcismos do kami do vento”, kaze no kami okuri, semelhantes a ritos exorcísticos para expulsar espíritos maus. Tais ritos destinavam-se não só a afastar tufões e outros ventos fortes, mas também a exorcizar e expulsar espíritos maus e “kami de epidemia”, ekishin, tidos como responsáveis por resfriados e influenza, porque a palavra para vento, kaze, era homófona de outra palavra que significa resfriado. A homofonia é a razão que a página dá.

O festival da corte, duas vezes por ano

O Fūjin sai, na página de Namiki Kazuko, é o “festival das deidades do vento”. Um festival das eras antiga e medieval. Também chamado festival das deidades do vento de Tatsuta. Muitas vezes referido em conjunto com o festival Ōimi de Hirose, Ōimi sai, como o “festival Hirose-Tatsuta”. Um rito que pede condições de tempo favoráveis e boa colheita.

A corte enviava ritualistas imperiais, saishi, ao santuário de Tatsuta, na província de Yamato, hoje distrito de Ikoma, prefeitura de Nara, para executar a cerimônia. O festival realizava-se duas vezes por ano, no quarto e no sétimo meses lunares, no mesmo dia do festival Ōimi no santuário de Hirose. Uma explicação possível para a escolha de Tatsuta é o fato de, na Antiguidade, a região de Tatsuta ser considerada a entrada dos ventos de oeste que sopravam para a bacia de Yamato. “Possível” fica na explicação. A página não converte os meses lunares.

É um dos chamados ritos de Estado do ritsuryō, registrados nas Prescrições das Divindades, Jingiryō, e designado festival menor, shōsai, nos Regulamentos Engi, Engi Shiki. Mesmo assim, escreve Namiki, parece ter sido muito considerado entre os ritos codificados, porque os saishi que o executavam eram escolhidos entre senhores e oficiais da corte do quinto escalão ou acima. “Parece” é o verbo. A página não imprime o nome de um oficial.

Acredita-se que o rito tenha origem no século VII, sob o reinado do imperador Tenmu. Foi estritamente observado ao longo dos períodos Nara e Heian e continuou no período medieval. Foi abolido no período das dinastias do Sul e do Norte. Uma teoria sustenta que tanto o Fūjin sai como o Ōimi sai eram executados nos dois santuários, Hirose e Tatsuta. “Acredita-se” cobre a origem. “Uma teoria” cobre a execução nos dois santuários. Suzuki, que chama o Tatsuta Jinja de conhecido pelo Fūjinsai, não imprime essa abolição.

O que estas quatro páginas não fazem é desenhar o par de estátua que o título desta matéria junta no nome. O trovão tem chicote e tambores a partir de cerca de Kamakura, e antes disso serpente ou criança. O vento tem o sopro, o par de nomes na sugestão do norito, Tatsuta, a foice, a vigília, a homofonia com o resfriado e o festival da corte, depois abolido. Fūjin, como palavra, está no verbete popular do vento. Não está numa legenda de saco.

Fontes

Perguntas frequentes

Raijin e Fujin são o mesmo kami?

Não, nestas páginas. Raijin é o verbete do trovão, assinado por Suzuki Kentarō. O vento está em três outros textos: Shinatsuhiko, de Nakayama Kaoru; Kazenokami, também de Suzuki, que imprime fūjin como outro nome; e o Fūjin sai, de Namiki Kazuko, que é o festival da corte. Nenhum dos quatro é uma legenda de estátua em par.

O que é o kandachioi?

No verbete de Raijin, é um rito de algumas regiões quando o trovão soa na época do transplante do arroz. Bate-se bambu rachado, ou fixam-se lâminas de foice na ponta de bambus, como exorcismo simbólico do raijin. Não é o mesmo gesto do bambu recém-cortado com shimenawa no lugar do raio.

O festival de Tatsuta ainda é o rito da corte?

Namiki Kazuko escreve que o Fūjin sai, rito de Estado, foi abolido no período das cortes do Sul e do Norte. Suzuki Kentarō, no verbete do vento, diz que o Tatsuta Jinja é conhecido pelo Fūjinsai e foi centro de ritos contra o dano do vento. As duas frases ficam. Uma é o rito da corte. A outra é a fama do santuário no verbete popular.

Estes verbetes descrevem o saco de vento?

Não. O de Raijin, a partir de cerca do período Kamakura, descreve forma demoníaca, um chicote e um anel de tambores ligados. Os três do vento não descrevem saco, chicote nem tambor. A matéria do Sensō-ji, neste portal, é que coloca Fujin e Raijin no portão. Estes verbetes não.