(Kami)
Emma-ō: o juiz do rolo de Nara e o sul do de Quioto
Dois rolos de museu: o Enma-ō de Lu Xinzhong, em Nara, julga no meido. O Enmaten de Quioto guarda o sul. Não são a mesma ficha.
Emma-ō, nesta matéria, é o nome que a página do Museu Nacional de Nara põe entre parênteses ao lado de Enra-ō. O rolo é um dos dez reis que julgam o morto no meido. Noutra ficha, a do Museu Nacional de Quioto, a figura chama-se Enmaten, faz parte de um conjunto dos doze devas, e a legenda entrega uma função só: a guarda do sul. As duas páginas estão no e国宝. As duas são de pintura sobre seda. Não descrevem o mesmo objeto, nem o mesmo século, nem o mesmo ofício. Esta matéria lê cada ficha no que ela imprime.
閻魔王
Enma-ō
O rolo de Quioto, uma frase
O título é 十二天像 閻魔天. A leitura que a página dá é jūniten-zō, Enmaten. O objeto é um rolo, um dos doze devas. A técnica é cor sobre seda. A altura é 144,2 centímetros. A largura é 126,6 centímetros. A data é período Heian, século XII. A casa é o Museu Nacional de Quioto. O número de tombo é A甲283-6.
O cabeçalho ainda imprime, entre parênteses, 十二天像 のうち: este rolo é “de entre” o conjunto dos doze. A unidade é 1幅, um rolo. A página oferece vista do conjunto e lista de detalhes, e um manifesto IIIF. Isso organiza a ficha. Não acrescenta um nome aos outros onze.
A legenda cabe numa frase. O kami governa o meikai. Foi cultuado também sozinho. Neste conjunto, porém, cabe-lhe a guarda do sul. A página imprime 神, 冥界 e 南方の守護. O verbo de governar é つかさどる. “Também sozinho” é 単独でも信仰された. “Aqui” é ここでは. As duas cláusulas ligam-se por が. O culto solitário e o posto de guardião do sul são o que a ficha aceita. A frase não abre uma terceira.
A ficha não lista os outros onze. Não reparte o horizonte em oito ou doze rumos. Não diz o que o sul protege além da palavra guarda. Não dá um templo, um dia de rito, nem um texto de escritura. Não descreve o rosto, a mão, nem o que a figura segura. Quem quiser o desenho olha a imagem do museu. O texto, sozinho, para na função.
Um outro conjunto de doze devas, noutro museu e noutro século, pode nomear rumos e pode escrever o sul com outro kanji. Essa ficha não é a fonte desta matéria. O sul que aqui vale é o 南方 da legenda de Quioto, colado a este tombo, A甲283-6, e a esta medida. Importar uma lista de rumos de outro rolo faria a legenda dizer o que ela não diz.
O século XII e a medida larga separam este rolo do de Nara antes de qualquer teologia. 144,2 por 126,6 não é 83,2 por 47,0. Heian não é Song do Sul. Quioto não é Nara. Enmaten não é o título que a outra página escolhe para o cabeçalho. A seda de Quioto não traz, na linha técnica, a lama de ouro que Nara imprime. Cor sobre seda, 絹本著色, é o que as duas compartilham na técnica de base. O resto da linha técnica diverge.
O rei de Nara, e o calendário impresso
O título da página de Nara é 閻羅王図. A leitura é Enra-ō zu. O nome de designação, entre parênteses, é 絹本著色十王図, pintura a cor dos dez reis, sobre seda. O rolo é um dos dez. O pincel é de Lu Xinzhong, 陸信忠, lido Riku Shinchū. A técnica acrescenta 金泥, lama de ouro, ao lado da cor sobre seda, e o formato é 掛幅, rolo pendurado. A medida vem com 各: cada um, 83,2 de alto por 47,0 de largo. A data é China, Song do Sul, século XIII. A casa é o Museu Nacional de Nara. O tombo é 1013(絵201).
A primeira frase do texto muda de lugar. A pessoa, depois da morte, dirige-se ao meido, 冥土. A página escreve 人が死後に赴く. Ali estão dez reis. O ofício deles é julgar o karma do morto, 罪業. Entre eles está Enra-ō, e a página abre parênteses: 閻魔王, Enma-ō. O nome do slug desta matéria é esse parêntese. O título do rolo continua a ser Enra-ō. O nome de designação continua a ser o conjunto dos dez reis. Três rótulos, um objeto.
O calendário vem a seguir, e é só desta página. Do primeiro sétimo dia, 初七日, ao sétimo sétimo dia, 七七日, de sete em sete dias, e ainda no centésimo dia, 百日, no ano, 一年, e nos três anos, 三年, o morto é julgado, pela ordem, diante de cada rei. O verbo de ir de rei em rei é 順次. Os reis decidem em qual dos seis caminhos, 六道, ele renasce. A página não nomeia os seis. Não diz qual rei ocupa qual data. “Pela ordem” é o que está escrito.
A série dos sétimos e as três datas seguintes estão na mesma frase que os dez reis. A página não soma essas menções num número de audiências, nem escreve “dez datas”. Esta matéria também não soma. Não entrega o primeiro sétimo a Enra-ō só porque o rolo desta ficha é o dele. Um mapa assim seria outra ficha.
O parágrafo histórico fica na China, e é mais largo do que a data do objeto. O rolo é Song do Sul, século XIII. A página, na mesma ficha, diz que há obras desde as Cinco Dinastias, por volta do século X. No Song e no Yuan, pintores profissionais de Mingzhou, glosada como a atual cidade de Ningbo, em Zhejiang, trouxeram muitas peças ao Japão. O representante desses pintores, escreve o museu, é Lu Xinzhong. O século XIII deste rolo não apaga o “por volta do século X”, nem transforma o Yuan em Song do Sul. São camadas de tempo na mesma ficha. “Muitas peças” não é uma contagem. Ningbo é a glosa da página para Mingzhou, não um endereço de visita.
A assinatura deste rolo, 落款, tem uma parte em falta. Ainda assim, o museu reconhece a mão como a mesma do seu 仏涅槃図, o nirvana, também de Lu Xinzhong. “Reconhece-se que coincide” é o verbo da página. Não é um certificado transcrito por extenso. O nirvana é outra pintura, nomeada só para o confronto da letra. Esta matéria não descreve esse segundo rolo.
O que os dez quadros mostram
Os dez quadros, diz a página, seguem o mesmo arranjo. O rei vem com os oficiais do além, 冥官. Senta-se na cadeira. Volta-se para a mesa. Examina a culpa escrita, 罪状. À frente, o morto que recebe o julgamento, ou o que já foi dado como culpado e recebe penas várias, junto dos oni carcereiros, 獄卒の鬼. A página usa あるいは entre o que ainda está diante do rei e o que já cumpre pena. As duas cenas cabem no “à frente”. Não são dois rolos.
“Os dez” inclui este Enra-ō e os outros nove, que a página não nomeia. O arranjo é o que se repete. A página não escolhe, neste texto, uma pena em particular. “Penas várias” fica no plural que ela imprimiu. Não há espelho, balança, nem animal de guarda nesta ficha. O que não está escrito não entra.
A frase de estilo fica entre o tribunal e o biombo. Forma precisa, 的確な象形, e cor brilhante, 鮮麗な彩色, dão uma expressão densa, 濃密な表現, própria da corrente de Lu Xinzhong, 陸信忠一流. É juízo de atelier. A página não lista pigmento, nem compara este rolo a uma peça japonesa de tinta nessa frase. A densidade é o elogio. O elogio não muda a medida nem o século.
A última frase sai do rei e vai para o biombo atrás dele, 衝立. Em todos, há uma paisagem a tinta, 水墨山水図. Essas pinturas dentro da pintura, 画中画, considera a página, tiveram um papel na entrada da pintura a tinta no Japão. O verbo é 考えられる, “pode considerar-se”. Não é uma data de desembarque, nem o nome de um pintor japonês que tenha copiado o biombo. O papel é “um”, 一つの. A página não diz que foi o único. “Em todos” aplica-se aos dez biombos do conjunto. Não transforma a paisagem a tinta numa cena do julgamento. O rei examina a culpa na mesa. A tinta fica atrás dele.
O sul do rolo de Quioto não aparece aqui. Nara não diz que Enra-ō guarda um ponto cardeal. Quioto não diz que Enmaten julga de sete em sete dias. Juntar a guarda do sul ao calendário dos dez reis faria um terceiro texto, que nenhum dos dois museus assinou.
O que estas fichas não são
O meido de Nara é 冥土. O meikai de Quioto é 冥界. As duas palavras cabem no além, e as páginas não as declaram sinônimas. Esta matéria deixa as duas grafias onde estão.
A descida de Izanagi ao país dos mortos tem matéria própria, a de Izanagi e Izanami. Lá o nome que os textos clássicos põem em cena é outro, e a viagem é a do par. Nenhuma das fichas de museu cita essa descida. O trovão que uma enciclopédia liga a essa mesma viagem está na matéria de Raijin e Fujin. Também não é este rolo.
Os oni carcereiros da pintura de Nara são os da frase 獄卒の鬼, ao lado de quem já foi condenado. O oni que entra em casa no Setsubun, com a soja, está na matéria do oni. A página do museu não cita essa noite. O carcereiro do rolo não herda o chifre dessa outra matéria.
O ema, neste portal, é a tabuleta votiva. A matéria está em ema. A grafia é 絵馬. O juiz é 閻魔. O som próximo, em algumas leituras, não junta as fichas. A página de Nara não descreve uma tabuleta de madeira pendurada num santuário. A de Quioto também não.
A cidade em que o museu de Nara está tem matéria de destino, Nara: a capital, o cervo, o salão. O salão do Buda, noutro texto, é o Tōdai-ji. Nenhum dos dois é o tombo 1013(絵201). O rolo não está descrito nessas páginas, e elas não estão descritas na ficha do rei.
A cidade do outro museu está na matéria de Quioto. A ficha do Enmaten não descreve a festa de julho nem a rua. Diz o século XII, a seda, a medida e a guarda do sul.
O que fica, depois de separar, é o que as páginas aguentam. Um rolo largo do século XII, em Quioto, chama a figura de Enmaten e entrega-lhe o sul, sem calendário e sem mesa. Um rolo estreito do século XIII, em Nara, chama o rei de Enra-ō e de Enma-ō, senta-o à mesa, e imprime os prazos. A tinta do biombo, a letra comparada ao nirvana, a lama de ouro e os pintores de Ningbo são frases de Nara. O culto solitário é frase de Quioto. O tombo, a medida e a casa acompanham cada frase, para que o sul não viaje para Nara e o sétimo dia não viaje para Quioto.
Quem lê as duas fichas seguidas encontra um juiz com nome entre parênteses e um guardião com uma frase. O parêntese não autoriza a tratar o rolo de Quioto como um dos dez reis. O título “doze devas” não autoriza a tratar o rolo de Nara como um mapa de rumos. O e国宝 junta as duas no mesmo catálogo de bens. O texto de cada uma continua a ser o texto de cada uma. A leitura também não se unifica. Quioto imprime えんまてん, Enmaten. Nara imprime えんらおう, Enra-ō, e no parêntese 閻魔王, que esta matéria lê Enma-ō. Quem procurar uma só pronúncia para os dois tombos não a encontra nestas páginas.
Fontes
Perguntas frequentes
Enma-ō e Enmaten são o mesmo rolo?
Não. O rolo de Nara chama o juiz de Enra-ō e, entre parênteses, de Enma-ō, e faz parte de um conjunto de dez reis. O rolo de Quioto chama a figura de Enmaten, um dos doze devas, e a legenda diz que ali ela guarda o sul. As medidas, o século e o museu também são outros.
De quanto em quanto tempo os reis julgam?
A página de Nara imprime o calendário: do primeiro sétimo dia ao sétimo sétimo dia, de sete em sete dias, e ainda o centésimo dia, um ano e três anos. Cada rei, por sua vez, decide em qual dos seis caminhos o morto renasce. A página não nomeia os seis caminhos um a um.
O quadro de Quioto também descreve o julgamento?
Não. A legenda de Quioto tem uma frase: o kami que governa o meikai, cultuado também sozinho, e neste conjunto responsável pela guarda do sul. Não há dez reis, nem mesa, nem prazo de sete dias. O sul desta frase não se cola a outro conjunto de doze devas.
Emma-ō é o ema da tabuleta?
Não. O ema deste portal é a tabuleta votiva, 絵馬. O nome do juiz, na página de Nara, é 閻魔王. O de Quioto é 閻魔天. São palavras diferentes, em matérias diferentes.