(Costumes)

Omotenashi: o cuidado sem espera, e a raiz que se pensa

Uma página da JNTO diz que o omotenashi vem do sadō, cuidado em vez de espera. Outra diz que se pensa que a raiz está no chá, e que se antecipa o desejo.

Nicholas Nishimura 10 min de leitura

Pintura em sumi-e de uma bandeja de chá com doce, tigela, chasen e chaleira, à janela.

Omotenashi, na página da Japan National Tourism Organization publicada para a Austrália, é uma cultura de raiz funda, que vem do sadō, a cerimônia do chá, e significa cuidar dos convidados de todo o coração. O termo é, na frase da página, um microcosmo do país: hospitalidade centrada no cuidado, não na expectativa. Noutra página da mesma organização, o guia de viagem de luxo, a palavra é difícil de traduzir, o núcleo é o mesmo cuidado inteiro, e as raízes “se pensa” que remontam à cerimônia do chá. Duas páginas. Uma afirma a origem. A outra pensa a raiz. Não se escolhe o verbo de uma para apagar o da outra.

おもてなし

Omotenashi

Uma página diz que vem do sadō. A outra diz que se pensa que a raiz está na cerimônia do chá.

O que a página do cuidado imprime

A página diz que essa hospitalidade se sente na viagem, sobretudo no ryokan, a pousada de estilo japonês, no kaiseki, o banquete, e no próprio sadō. É difícil definir a palavra em inglês, porque compreendê-la é experimentar o Japão em pessoa. É uma hospitalidade que atravessa a casa de família, a cerimônia formal, a loja e a mesa. Vai além de “o cliente tem sempre razão”. O que há, escreve a página, é um entendimento implícito: não há tarefa menor se o resultado garante uma boa experiência ao convidado. A frase em inglês do “cliente tem sempre razão” fica entre aspas, como a página a pôs. Não é um código de consumo à parte.

A hospitalidade começa em cada porta. Ao entrar numa loja ou num restaurante, espera-se o irasshaimase em voz alta. Um aceno polido ou um sorriso bastam em resposta. Não há expectativa cultural de que esse cumprimento seja retribuído. A página não imprime um segundo cumprimento obrigatório. Não imprime gorjeta.

Nenhum costume japonês representa melhor o omotenashi do que o sadō, escreve a página. No centro de cada chakai, a reunião de chá, está o convidado. O anfitrião considera-o em cada movimento e em cada gesto. A parte mais importante de cada cerimônia é o anfitrião preparar uma tigela de chá a partir do coração. A matéria do chá lê a Urasenke e a tigela de dois gramas da prefeitura. Não imprime esta definição, nem o irasshaimase. Esta página não imprime os 70 mililitros, nem as sete regras, nem o chaji com o nome que a escola lhe dá.

Pelo caminho, escreve a página, o omotenashi está em toda a parte. Do cuidado dos lojistas aos limpadores do shinkansen que se curvam aos passageiros que embarcam. Quanto mais a pessoa abre o coração à gente e à cultura, mais recebe experiências que a página diz não haver iguais no mundo. A reverência dos limpadores é desta página. A página não imprime a velocidade do trem, nem um horário.

O que a mesma página lista, sem mudar a definição

Abaixo da definição, a mesma página lista experiências. Não as apresenta como uma segunda definição. O yukata, que a página chama de quimono de verão, serve para caminhar por ruas antigas ou sob as cerejeiras. Em Quioto, a página diz que se pode vestir como maiko, com a câmera pronta. Nomeia o Nishijin Textile Center, o Nishijin Lifestyle Museum e a Tondaya, em Quioto. A matéria do kimono lê o relatório da agência e a revista de agosto de 2024. Não imprime este passeio de yukata, nem a maiko, nem esses três nomes. Esta página não imprime o sun da faixa, nem o ingresso de 1.000 ienes.

A cidade de Quioto, neste portal, lê outras páginas. Não imprime o Nishijin Textile Center. O que esta página imprime, em Quioto, fica nesta lista: a maiko, os dois espaços de Nishijin, a Tondaya e, mais abaixo, templos. Não há hora de abertura ao lado desses nomes. Não há preço.

No bloco de samurai e ninja, a página nomeia o Iga-ryu Ninja Museum, na cidade de Iga, em Mie, que ela chama de berço do ninja de Iga. Nomeia o Edo Wonderland Nikko, o Toei Kyoto Studio Park e a Togakushi Ninja Village, em Nagano. Não dá ingresso, nem hora, nem um mapa do percurso. No bloco de zen, nomeia Taizoin e Myoshinji, em Quioto. Também sem hora. Esses nomes não entram na frase de origem. Continuam lista.

O parágrafo do ikebana chama a prática de kado, mais comumente ikebana. Fala em cálculo meticuloso e senso artístico, numa ligação espiritual com a natureza, no relaxamento do corpo, da mente e da alma, e em construir um mundo ou uma história dentro da obra. A matéria do ikebana lê a Ikenobo, o 1462 e o “diz-se” de Asuka. Não imprime este parágrafo de turismo. Este parágrafo não imprime 1462, nem os 9 metros, nem o aniversário de 2012.

Esses blocos não reescrevem a abertura. A origem que “vem do sadō”, o cuidado em vez da expectativa, o irasshaimase sem retribuição obrigatória e a tigela preparada a partir do coração continuam na definição. O yukata, a maiko, o museu de ninja e o kado estão ao lado. Não substituem o verbo “vem”.

O que o guia de luxo imprime na palavra

O guia de viagem de luxo, na mesma organização, abre por outro tom. O Japão é, sem dúvida, um dos destinos de viagem mais luxuosos do mundo. A hospitalidade e a atenção ao detalhe, escreve a página, não têm rival. Tóquio, escreve a página, figura de modo consistente como a cidade com mais restaurantes estrelados pelo Michelin no mundo. Quioto e Osaka não ficam longe. A página não imprime o número de estrelas, nem o de casas. A matéria de Tóquio não imprime essa frase, nem o Michelin, nem março de 2019.

A palavra, neste guia, é um pouco difícil de traduzir. No núcleo, é cuidar dos convidados de todo o coração. Sente-se em quase todo aspecto do serviço. Não é só fornecer o que o convidado quer. É antecipar e cumprir a necessidade antes de o convidado a notar. As raízes, “pensa-se”, remontam à cerimônia tradicional do chá. O conceito está tecido na sociedade, escreve a página. O país orgulha-se de ter a melhor hospitalidade do mundo. Nessa frase do orgulho não há “pensa-se”. O único modo de compreender, diz a página, é experimentar. O cuidado e a atenção “simplesmente não podem ser igualados”. A frase fica como a página a pôs.

As duas páginas não dizem o mesmo da raiz. A da Austrália escreve que a cultura vem do sadō, sem a cerca do “pensa-se”. O guia escreve que se pensa que as raízes remontam à cerimônia. “Vem” e “pensa-se” ficam cada um na sua página. A da Austrália não diz que o país tem a melhor hospitalidade do mundo. O guia não imprime irasshaimase, nem a frase de que não há expectativa de retribuir o cumprimento, nem a tigela preparada a partir do coração como a parte mais importante. Antecipar a necessidade antes de ela ser notada é frase do guia. Não é a do irasshaimase.

Mais adiante, no bloco de ofícios, o guia descreve a cerimônia do chá: serve-se matcha e doces pequenos, um rito embebido de história que remonta ao século XVI, estética e gosto, “exemplo perfeito de omotenashi em ação”. O século XVI é desta página. A página australiana não o imprime. Nenhuma das duas imprime os 2 gramas, nem os 70 mililitros, nem a colher do ministério. A matéria do matcha latte é o copo, com a ficha de uma colher e a de 2 gramas e 150 cc. Este guia não é essa receita. Não tem passo, nem leite, nem cc.

O que o guia põe na mesa, na estadia e no caminho

O mesmo guia, ainda sem ser definição, nomeia modos de comer. O omakase deixa liberdade criativa completa a quem cozinha. O kaiseki ryori, em salas reservadas, são pratos pequenos de estação. O kappo é mais casual, com o lugar perto de quem cozinha. O shojin ryori é o mesmo percurso de vários pratos, sem ingredientes de origem animal. Há aulas particulares de cozinha. O nihonshu é mais conhecido fora do país como saquê. Há bares de uísque de ponta. Não há colher, nem minuto, nem quilocaloria. Não se transforma este parágrafo numa ficha. O guia não imprime gorjeta, e a página australiana também não. O que a australiana imprime, e o guia não, é o irasshaimase em voz alta, o aceno ou o sorriso como resposta que basta, e a ausência de expectativa de retribuição. O que o guia imprime, e a australiana não, é a antecipação da necessidade, o século XVI, os 320 km/h e a data de março de 2019. Nenhuma das duas nomeia o Brasil.

Onde ficar: hotéis de cinco estrelas, machiya e ryokan. O ryokan, diz a página, é mais comum em zonas de fonte termal. Tatame, futon, e kaiseki de estação no quarto. A página pede que se confira o onsen no próprio lugar, para relaxar. A matéria do onsen lê a regra de entrada, a definição legal da temperatura e a toalha fora do tanque, noutras páginas. Este guia nomeia o banho. Não regula o tanque. Não se importa aquela regra para completar esta frase, nem se usa este “relaxar” para apagar a placa da fonte.

No caminho, o shinkansen vai até 320 km/h. A Gran Class tem assento espaçoso, comodidades e serviço atento. Há carro ou táxi particular com motorista que fala inglês. O guia nomeia o Seven Stars in Kyushu Cruise Train, com reserva antecipada essencial, e o JR West Twilight Express Mizukaze. Dá o endereço www.cruisetrain-sevenstars.jp. Há passeios de helicóptero na maior parte das grandes cidades, incluindo Tóquio, Osaka e Yokohama. A página australiana não imprime 320 km/h, nem a Gran Class, nem esses dois trens, nem o helicóptero. O guia não imprime a reverência dos limpadores. As duas frases do shinkansen não se fundem.

Os lugares, ainda neste guia: Quioto, para o ryokan clássico, o kaiseki de ponta e as cerimônias de chá. Kanazawa, para o ofício, a laca de folha de ouro e o entretenimento de gueixa. Hokkaido, para o ar livre com guia e a fauna: baleias, cervo de Yezo, raposas vermelhas, aves raras. As ilhas Ryukyu, para resort, golfe, ilhas remotas e mergulho. Não há preço de quarto. Não há população.

Os ofícios nomeados à parte: laca de Wajima, Edo-kiriko, cerâmica de Arita, pérolas Mikimoto, as primeiras do mundo a serem cultivadas, com o crédito de foto (C)MIKIMOTO, e o chirimen de Kyotango, crepe de seda para quimono, bolsas e pano de embrulho. Essa frase do chirimen é de acessório, neste guia. Não é a lista de chirimen da prefeitura que a matéria do furoshiki já leu. Este guia não imprime os centímetros daquele pano. Não se cola o nome Kyotango à medida de outra página.

O fecho do guia diz que toda a informação está correta em março de 2019, que o mais recente pode diferir, e que se confirme no site oficial. Março de 2019 não promete, para outro ano, a frase dos restaurantes, nem os 320 km/h, nem a reserva do Seven Stars. A página australiana não tem essa data, nem esse aviso. Também não tem o século XVI, nem o “pensa-se” na raiz. Tem o “vem”, o irasshaimase e a reverência de quem limpa o trem.

Quem lê as duas encontra a mesma palavra e não o mesmo verbo. Uma diz que o omotenashi vem do sadō e se sente no cuidado, não na expectativa, com a tigela a partir do coração e o cumprimento que não pede resposta. A outra pensa a raiz, antecipa a necessidade antes de ela ser notada, e data o conjunto em março de 2019. O yukata, o kado, o kaiseki e os 320 km/h ficam nas listas em que cada página os pôs. Não fecham a definição.

Fontes

Perguntas frequentes

De onde a página australiana diz que a palavra vem?

Do sadō, a cerimônia do chá. Chama o omotenashi de cuidar dos convidados de todo o coração, um modo de hospitalidade centrado no cuidado e não na expectativa. A outra página, a do guia de luxo, diz que se pensa que as raízes remontam à cerimônia do chá. 'Vem' e 'se pensa' não são o mesmo verbo.

É preciso responder ao irasshaimase?

Nessa página, não. Ao entrar numa loja ou num restaurante, espera-se o cumprimento em voz alta. Um aceno ou um sorriso bastam. Não há expectativa cultural de que o cumprimento seja retribuído. A página do guia de luxo não imprime essa frase, nem a palavra irasshaimase.

O que o guia de luxo acrescenta à definição?

Que o núcleo é cuidar dos convidados de todo o coração, e que isso inclui não só dar o que a pessoa quer, mas antecipar e cumprir a necessidade antes de ela a notar. Diz ainda que o país se orgulha de ter a melhor hospitalidade do mundo, e que a informação está correta em março de 2019. A página pede que se confirme o site oficial, porque o mais recente pode diferir.

O chá desta palavra é a tigela da matéria de chá?

Não. A matéria de chá lê a Urasenke e o instituto da prefeitura, com os 2 gramas e os 70 mililitros. Estas duas páginas nomeiam o sadō e a cerimônia, e a do luxo diz que o rito remonta ao século XVI. Nenhuma imprime os gramas, nem as sete regras, nem o dia 22 de dezembro de 2002.