(Receitas)

Bentō: a caixa da mão e o makunouchi do intervalo

O Japan Forum imprime makunouchi e o ekiben de 1885. A MAFF imprime tonjiki no Genji, o Morisada e quatro receitas de outono. Sem caloria inventada.

Nicholas Nishimura 9 min de leitura

Pintura em sumi-e de bentō aberto com arroz, tamagoyaki e peixe grelhado numa caixa de madeira, pauzinhos ao lado.

Bentō, na minenciclopédia do Japan Forum, é a refeição portátil em caixa levada à escola ou ao trabalho, a excursões, viagens de comboio, encontros desportivos ou hanami. Há muitos tipos: feitos em casa, encomendados e entregues, comprados em lojas de bentō ou convenience, e até servidos em restaurantes. Costumam ser almoço; às vezes jantar de quem faz horas extra ou trabalha longe. Muitas mães e cuidadores acordam cedo para preparar bentō nutritivo e atraente. O arroz, base da dieta japonesa, ocupa em geral grande parte da caixa; okazu — acompanhamentos — entram conforme gosto e necessidade. Ingredientes frescos escolhidos por cor e sabor da estação. Económico e prático; não exige refrigeração; feito com o que continua saboroso frio. A MAFF, num artigo de wagohan sobre bentō de outono, situa o protótipo do makunouchi no Edo e imprime receitas com tempos. Duas portas. A caixa de uma não inventa a caloria da outra.

弁当

bentō

O Japan Forum imprime makunouchi e 1885. A MAFF imprime o Morisada e as receitas de outono.

O que o Japan Forum conta: makunouchi e ekiben

Makunouchi, o bentō de luxo, surgiu no período Edo em Edo (hoje Tóquio) como refeição dos espectadores de kabuki em espectáculos de dia inteiro. Comia-se no intervalo — makunouchi —, daí o nome. Hoje é o tipo padrão nas estações e nas lojas de bentō. O arroz pode moldar-se em rolinhos do tamanho de uma dentada e polvilhar-se de gergelim. Ingredientes típicos: peixe grelhado, tamagoyaki (ovo enrolado), fatias de kamaboko (pasta de peixe cozida), vegetais estufados (nimono) e outros acompanhamentos.

Ekiben, “station bento”: o primeiro, crê-se, foi vendido em 1885 na estação de Utsunomiya (Tochigi) e consistia em onigiri e tsukemono. A ferrovia desenvolveu-se mais depressa que a estrada e o automóvel particular; desfrutar ekiben — que ajudavam a promover especialidades locais ao longo de cada linha — tornou-se um dos pontos altos da viagem. Grandes armazéns por vezes fazem feiras de ekiben de todo o país. Os ekiben apresentam pratos regionais da zona da estação; por vezes a própria caixa reflecte a cultura ou história local. A matéria de onigiri deste portal lê 1885 com a Onigiri Society e Whitelaw: duas bolas e pormenores de Utsunomiya. O Forum imprime onigiri e tsukemono. Não se cola o takuan da associação a esta frase do Forum sem a outra fonte.

A matéria de Período Edo lê a paz longa. Não imprime o intervalo do kabuki. A matéria de Omotenashi lê a hospitalidade. Não transforma o bentō doméstico numa cerimónia de chá. Não se inventa que todo bentō de estação no Brasil é ekiben histórico.

O que a MAFF data: tonjiki, Morisada e a mesa de outono

O artigo da MAFF “歴史を辿り、秋の行楽弁当を愉しむ” abre com a palavra Bento já comum no mundo e pergunta se o leitor conhece a história. Duas histórias e receitas de outono. Primeira: o protótipo do onigiri em narrativa. No Genji Monogatari, cena da genpuku de Hikaru Genji, a MAFF cita a passagem dos oribitsu e tonjiki. Tonjiki, explica, era arroz glutinoso cozido no vapor (kowaīi) apertado e servido a pessoas de estatuto inferior nos banquetes aristocráticos — dito protótipo do onigiri. Mais de mil anos. Segunda história: o makunouchi no Edo. Peças de teatro de manhã à tarde; clientes ricos mandavam comida e chá; para o público geral nasceu o makunouchi. No fim do Edo, o Morisada Mankō de Kitagawa Morisada descreve o conteúdo: 10 nigirimeshi, konnyaku, tofu grelhado, kanpyō eimo estufados, kamaboko, tamagoyaki. Sem frigorífico; por isso cozidos, pastas e grelhados que conservam. Comparado com o makunouchi de hoje, a ficha chama o conteúdo de então “saudável”.

Pontos de montagem que a MAFF imprime para o bentō de outono: não juntar a mesma cor lado a lado; criar volume; o acompanhamento principal no centro dá impressão luxuosa; se sobrar espaço, fruta da estação. Caixa grande ou bentō individual. Estas são regras de apresentação da ficha, não minutos de cozinha.

Receitas que a MAFF assina com tempo

Nametake takikomi gohan — cerca de 15 minutos (além de cozer e vapor do arroz), 4 pessoas: 1 frasco de nametake (180 g), 1,5 go de arroz, 1 pedaço de gengibre, 2 cebolinhos, cerca de 324 ml de água. Lavar o arroz, pôr na panela eléctrica com a água; acrescentar o frasco de nametake, misturar de leve, cozer como arroz branco (modo takikomi se houver); ao terminar, misturar bem; servir com gengibre em agulha e cebolinho em rodelas.

Tori no nabe teriyaki — cerca de 15 minutos, 4 pessoas: 1 coxa/sobrecoxa de frango; 2 colheres de sopa cada de shoyu, mirin, açúcar e saqué. Cortar o frango em pedaços de uma dentada; aquecer bem a frigideira, pele para baixo, fogo médio até marcar; virar; quando corado, deitar o saqué, deixar evaporar o álcool, juntar o resto dos temperos e reduzir até brilhar, envolvendo.

Fry de salmão de outono com tártaro de rakkyō — cerca de 20 minutos, 4 pessoas. Salmão: 2 postas, 1/2 chávena de panko, 2 colheres de sopa de farinha fraca, 3 de água, sal e pimenta a gosto, óleo até 2–3 cm. Tártaro: 5–6 rakkyō, 1–2 ovos cozidos, 3 colheres de sopa de maionese, salsa seca e pimenta a gosto. Ovos: 12 minutos desde água fria, arrefecer, descascar, partir ao meio. Rakkyō em brunoise; misturar o tártaro esmagando o ovo com garfo. Salmão em pedaços, sal e pimenta dos dois lados; farinha+água; panko; óleo a meio fogo até o panko flutuar de imediato; fritar 1–2 minutos de referência até corar de leve dos dois lados.

Negi iri tamagoyaki — cerca de 10 minutos, 4 pessoas: 4 ovos, 1 cebolinho, 3 colheres de sopa de açúcar, pitada de sal (menos de 1/4 de colher de chá), 1 colher de chá de óleo. Cebolinho em rodelas; misturar ovos, temperos e cebolinho; frigideira antiaderente de tamagoyaki a meio fogo com óleo; baixar o fogo, deitar o líquido aos poucos, enrolar com espátula; tirar, apertar em esteira ou papel de cozinha, arrefecer.

Estes minutos e medidas são da MAFF. Esta matéria não inventa kcal por caixa brasileira. Não inventa tempo de “bentō completo” somando as quatro receitas como se fossem um único prato obrigatório. São quatro okazu possíveis. A matéria de nattō lê o feijão de Mito. Pode entrar na caixa; não é a definição de bentō. A matéria de soba e a de gyūdon são outros pratos. Podem inspirar o okazu; não substituem a caixa.

O Japan Forum insiste num ponto prático que a MAFF não precisa repetir na ficha de receitas: o bentō é feito para saber bem frio. Por isso o okazu escolhe cor e estação, mas também conservação sem gelo. O Morisada, na leitura da MAFF, já apontava cozidos, pastas e grelhados. A linha que vai do intervalo do kabuki ao ekiben de 1885 e à caixa da escola ou do escritório é a mesma lógica de mão: o arroz viaja mal no prato fundo e bem na divisão da caixa.

A MAFF, ao citar o Genji, não transforma tonjiki em receita caseira moderna. Só data o gesto de apertar arroz glutinoso. A matéria de onigiri deste portal aprofunda a bola com Kikkoman e a Onigiri Society. Aqui o tonjiki entra só como porta histórica que a MAFF abre para o leitor de bentō. Não se cola o método de panela da Kikkoman a esta ficha de outono.

Nas receitas, os tempos são tetos da ficha — cerca de 15, 15, 20 e 10 minutos — e a MAFF exclui explicitamente o tempo de cozer e vapor do arroz no takikomi. Quem soma os quatro okazu num único sábado de meal prep inventa uma conta que a fonte não faz. Melhor ler cada bloco como peça possível. O nametake em frasco de 180 g e os 324 ml de água para 1,5 go são medidas da MAFF; o fogão brasileiro que não tem “go” usa a conversão habitual do pacote de arroz japonês, sem fingir que a MAFF imprimiu mililitros para o grão longo.

A apresentação — cores separadas, volume, principal no centro, fruta no vão — é o trecho mais “ Bentō” da ficha, no sentido de cultura visual da caixa. O Forum não imprime estas regras de montagem. A MAFF não imprime o ekiben de Utsunomiya. Cada porta guarda o seu utensílio. O portal não troca a caixa de madeira do makunouchi pelo plástico da convenience sem dizer que a troca é do leitor, não da fonte.

A matéria de nattō mostra um okazu que divide opiniões e ainda assim entra em muitas caixas no Japão. A de soba e a de gyūdon são refeições quentes de taça; podem inspirar o sabor do acompanhamento, mas o Forum descreve bentō como caixa com arroz e okazu frios ou temperados para o frio. Não se serve gyūdon a ferver dentro do bentō e se chama a isso a definição do Forum.

No Brasil, a dica que cabe sem trair as fontes: montar a caixa na véspera com o que já esfriou; evitar molhos a mais que encharquem o arroz; levar shoyu à parte se precisar. Isso é juízo de cozinha doméstica alinhado ao “tasty even when cold”, não uma norma MAFF. A MAFF deu quatro receitas com relógio. O Forum deu a cultura da caixa. Juntas, bastam para abrir a porta. Fechar a porta com caloria inventada ou com “tempo total de bentō perfeito” seria exactamente o número sem dono que este portal recusa nas receitas.

No Brasil, sem inventar o que a fonte não mede

O Japan Forum não nomeia o supermercado brasileiro. A MAFF não publica tabela de arroz longo versus japonica nesta ficha de bentō. A adaptação prática, no mesmo espírito das matérias de onigiri e nattō deste portal: arroz de grão curto vendido como japonês ou para sushi segura melhor o volume na caixa; acompanhamentos que aguentam temperatura ambiente — ovo cozido ou tamagoyaki, legumes estufados arrefecidos, peixe ou frango já cozidos e frios — seguem a lógica do Forum (“tasty even when cold”) sem inventar prazo de segurança. Shoyu, mirin e açúcar das receitas MAFF encontram-se em lojas de produtos asiáticos; rakkyō e nametake em frasco nem sempre; na falta, a ficha não autoriza uma substituição inventada com o nome da MAFF. Troca-se o okazu, não se finge que a MAFF aprovou o substituto.

Montar: arroz num lado ou no fundo; okazu com cores diferentes lado a lado; fruta se couber — como a MAFF sugere. Caixa de plástico com divisórias ou marmita japonesa: o utensílio não está datado nestas fontes. O furoshiki deste portal pode embrulhar a caixa; não é obrigatório no Forum. O que estas páginas imprimem é a cultura da caixa portátil, o nome do intervalo do kabuki, o ekiben de 1885, o Morisada e quatro receitas com relógio. O resto — caloria, marca de convenience brasileira, minuto “universal” de fritura em qualquer fogão — fica fora da caixa.

Fontes

Perguntas frequentes

O que é makunouchi, segundo o Japan Forum?

Bentō de luxo que surgiu no período Edo em Edo (hoje Tóquio) como refeição dos espectadores de kabuki durante o intervalo — makunouchi. Hoje é o tipo padrão vendido em estações e lojas de bentō: arroz em rolinhos com gergelim, peixe grelhado, tamagoyaki, kamaboko, vegetais cozidos e outros acompanhamentos.

Quando aparece o primeiro ekiben nestas páginas?

O Japan Forum escreve que o primeiro ekiben se crê ter sido vendido em 1885 na estação de Utsunomiya (Tochigi), com onigiri e tsukemono. A matéria de onigiri deste portal lê a mesma data com a Onigiri Society e Whitelaw. Não se inventa o conteúdo da caixa além do que cada fonte imprime.

Que receita de outono a MAFF publica com tempos?

Entre outras: nametake takikomi gohan (~15 min além de cozer o arroz); tori no nabe teriyaki (~15 min); fry de salmão de outono (~20 min); tamagoyaki com cebolinho (~10 min). Ingredientes e passos ficam na ficha; esta matéria não inventa kcal.

Bentō e onigiri são a mesma coisa?

Não. O Japan Forum descreve bentō como refeição portátil em caixa — arroz com okazu. O onigiri é a bola de arroz que pode ir dentro do bentō ou viajar sozinha. A matéria de onigiri deste portal lê a bola. Não transforma a caixa inteira num triângulo.